segunda-feira, 31 de outubro de 2011

WHC (1) Nemrut Dagi

Na Turquia e na Grécia restam a maioria dos monumentos significativos da Antiguidade.
Um deles é Nemrut Dagi, onde se vêem impressionantes cabeças do que foram outrora estátuas completas.
Monte Nemrut, Turquia 
Águia no "templo de Antíoco I".

Este é o primeiro de alguns apontamentos sobre os sítios UNESCO - WHC (World Heritage Center).
Não se trata de reportar o conhecido... para isso aconselho a visita ao sítio da Unesco, e aconselho mesmo, pois há muitos monumentos classificados e que estão longe de ser muito conhecidos!

Também não se trata aqui de elaborar grande sustentação sobre uma nova teoria...
... este blog é mais pessoal que o Alvor-Silves, e neste tópico darei a minha opinião mesmo sem ser politicamente correcta ou muito fundamentada em factos objectivos.

Sobre este conjunto de cabeças de estátuas arrancadas e colocadas num monte remoto, apetece apenas fazer uma conjectura simples:
 - A necessidade de ocultar registos históricos anteriores levou a uma estratégia dos impérios que tomaram conta dos destinos mundiais - criar um autêntico museu na Turquia. Aí foram depositando o que restava de civilizações anteriores, espalhadas pelo globo. O excesso de registos naquela parte, muitas vezes em sítios inóspitos, e a quase ausência de monumentos na mais amena e produtiva Europa teria assim uma explicação concreta. O que foi sendo encontrado foi esse transporte de monumentos de várias partes para uma mesma localização. Assim se explicaria a concentração de ruínas e reinos concentrados na Ásia Menor e Medio Oriente, em sítios onde provavelmente nunca ninguém terá habitado, tal como hoje não habita.
- Na fase seguinte, pós-descobrimentos quinhentistas, ou seja a partir do Séc. XVII as peças encontradas nas Américas e depois na Austrália, tiveram outro destino... a Antártida.
Até que fosse possível ocultar a quase totalidade dos monumentos, destruindo a maioria, mas preservando os mais importantes, os descobrimentos estiveram praticamente parados. À rápida expansão na transição de 1500, poucas décadas depois era praticamente claro que o trabalho de ocultação levaria alguns séculos a ser feito. Só foi completado simbolicamente na viagem de Cook, e a ocultação final e completa terá sido levada a cabo nas expedições inglesas e escandinavas.

Nesta conjectura, a maior restrição às actividades no enorme continente gelado - a Antártida, será essencialmente uma restrição para preservar fora dos olhos da população tudo o que poderia revelar os enormes vestígios de um nosso passado que nos foi ocultado, e sobre o qual só saberemos alguma coisa pelos registos míticos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Canto das Canárias

À frente, no trabalho das minas, seguia o canário, sinalizando a qualidade do ar.
Tremiam as pernas do canário, logo tremiam as dos mineiros.
Tremem as Canárias... nesse canto da Europa, a tocar a África, e algum alarme surgiu no ar.
Sucessivos sismos têm levado, nestes dias finais de Setembro, ao alerta de provável erupção vulcânica, com evacuação na ilha de Hierro. Um eventual desabamento da ilha poderia resultar num tsunami de grandes proporções.

Etimologia
A etimologia Canárias parece vir da designação Insula Canari, que teria origem na grande quantidade de cães que haveria numa das ilhas, conforme reportado por Plínio (cf. elcastellano.org)

Pela mesma época greco-romana podem ter sido designadas como Ilhas Afortunadas, designação que é também vista como extensiva a toda a Macaronésia (conjunto que engloba os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias, e por vezes Cabo Verde).
Neste local paradisíaco, dizia Plínio que confluíam aves de todo o tipo, mas também dava conta de que apodreciam ali corpos de monstros expelidos pelo mar (cf. wiki). Aqui quem quiser opta pela sua interpretação de "monstros", que tanto poderiam ser as conhecidas baleias, como também algo diferente!

Canários
Sobre as aves de todo o tipo, é inevitável falar dos canários.
Foram as ilhas a nomear as aves, e não o inverso (conforme já apontámos).
Os canários, aves frágeis, primeiras a sucumbir à falta de bom ar, eram autóctones das Canárias, Madeira e Açores, ou seja do conjunto da Macaronésia. Na Europa e África teriam como espécie aparentada o chamariz... porém naquele canto, o canto surgiu incomparável.
Canário selvagem nas Canárias

Os três arquipélagos são suficientemente distantes para serem único albergue do pássaro cor-de-sol. Não podem ter evoluído para a mesma espécie em três partes distintas. Estes locais surgem assim como único reduto, ou talvez último reduto.

O amarelo característico do canário, identificou o chamado canarinho brasileiro... e também são canários os habitantes de Canelones no Uruguai, aparentemente por ter sido primeiro colonizada por imigrantes das Canárias. Um pouco mais acima, já no Brasil, encontramos os Gaúchos, e o termo parece ainda vir da colonização espanhola com o estabelecimento de Guanches, das Canárias, cujo nome se deturpou em Gaúchos (cf. wiki). Subitamente, há uma colonização espanhola sobre território anteriormente português, resultado da ruinosa condução do Marquês de Pombal. Aparece então essa justificação de imigração das Canárias, associada à população daquelas paragens. 
Poderia haver uma conexão com as Canárias, muito anterior?
- A avaliar pelo relato da descoberta de túmulos com armas macedónicas, em Montevideo (Dores), conforme relatava Cândido Costa, a ligação àquelas paragens podia remontar ao Séc. IV a.C. 

Na exploração mineira, os Canários seguiam à frente, como experiência.
A primeira experiência de descoberta e conquista, foi exactamente assim nas Canárias.

Para além dos relatos de Plínio que fala numa expedição do reio núbio Juba II, e dos vestígios arqueológicos cartagineses, seria quase tão difícil não dar com as Canárias, como não dar com a Inglaterra... sendo que as Canárias estão mais próximas da saída do Estreito de Gibraltar!

Houve viagens... mais ou menos reconhecidas, sendo notória a preocupação de Afonso IV a reclamar as ilhas em 1345, e de onde Lanzarote pertenceria à Ordem de Cristo, sendo depois esse direito invocado pelo Infante D. Henrique. 

No entanto, o ponto principal é a passagem ao domínio espanhol, em 1496, e a aniquilação quase total dos Guanches, povo autóctone das Canárias.
Esta experiência genocida seria depois a matriz para o tratamento dos aztecas e incas.
Os Canários seguiram à frente, e foram os primeiros a sucumbir à falta de ar respirável, pelos conquistadores dos descobrimentos!

Digamos, que este será o primeiro relato genocida... não é de forma alguma claro que só as Ilhas Canárias estivessem habitadas. Por melhores condições, mais facilmente seria habitável a Madeira, ou mesmo as ilhas dos Açores... mas se houve genocídios semelhantes, pelo lado português, ultrapassaram não apenas uma extinção do povo, mas também a extinção do registo e memória!

Ilha de Hierro
Como a ilha de Hierro, onde se têm centrados os epicentros das dezenas de recentes sismos de intensidade pequena (entre 2 e 3 na escala de Richter), é uma ilha turisticamente pouco conhecida, apresentamos uma figura com a localização de 4  epicentros de recentes abalos consecutivos, a profundides próximas dos 10 a 15 Km.

Na imagem salientamos o Roque de Bonanza... um Rochedo da Bonança, que tem um aspecto singular, merecendo a nossa atenção:
Roque de Bonanza

Não há muitas formas resultantes de erosão marítima que tenham produzido uma figura de rochedo tão estranha, parecendo quase uma escultura, havendo ainda vários pontos de interesse nesta ilha, que se tornou parte Reserva da Biosfera da UNESCO.

Enquanto escrevíamos este texto, os sismógrafos registavam mais 8 pequenos sismos naquela mesma zona! Tremem os canários, tremem os mineiros...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pirâmides Romanas (de Remo e Rómulo)

É habitual falar-se das pirâmides egípcias, aztecas, maias, entre outras novas... mas não das romanas!

Apesar de ser conhecimento certamente comum dos habitantes de Roma, a Pirâmide de Céstio (Cestius), construída no tempo de Augusto, não faz parte dos mais populares roteiros e monumentos da cidade de Roma.
Dir-se-à que Roma tem muitos monumentos, etc. (há sempre muita imaginação argumentativa), mas é notável existir em Roma uma pirâmide com quase 40 metros de altura (aprox. 12 andares), que é ignorada pela maioria da população mundial. Mesmo os mais fanáticos por pirâmides, acabam por esquecer esta!
 
Imagens da Pirâmide de Cestius em Roma,
que é "atravessada" pelas muralhas de Aureliano.

Outro facto que parece notável é estar escrito que a pirâmide demorou menos de um ano a ser construída, sendo que a data de construção será pouco anterior ao nascimento de Cristo, mais precisamente é datada entre 18 e 12 a.C.

Não é um monumento de nenhum imperador ou general! - é suposto ser o túmulo de um magistrado.
Parece algo estranho tal túmulo para um personagem menor de Roma, especialmente porque nada de semelhante dimensão restou do Imperador Augusto, seu contemporâneo, e o mais influente imperador na História de Roma.

Mais estranho ainda é a pirâmide não ser caso único...
Havia um par, denominado Pirâmides de Remo e Rómulo - lendários fundadores de Roma.

Esta seria a Pirâmide de Remo, quanto à Pirâmide de Rómulo...
A Pirâmide de Rómulo, mais próxima do Vaticano, começou a ser destruída em 1499, quando o Papa Alexandre VI (o papa castelhano que negociou o Tratado de Tordesilhas) decidiu usar pedras para construir o novo bairro, chamado Borgo Nuovo. Ao que parece em 1518 ainda restavam pedras... mas depois desapareceu por completo! (**)


O símbolo do Borgo Nuovo 
pode lembrar as pirâmides com a esfínge deitada,
assinalando talvez a destruição da Pirâmide de Rómulo.  

Não encontrámos nenhuma imagem associada à Pirâmide de Rómulo... que aparentemente seria maior e mais bela do que a de Pirâmide de Remo, ou seja a Pirâmide de Céstio - a única que restou e que se encontra em algumas (poucas) imagens antigas. Não é assim tão estranho não encontrarmos imagens, já que apesar de todos os Leonardos, Rafael, Miguel Angelo, etc... também não nos lembramos ter visto imagens do Coliseu, ou de vários outros monumentos. Encontrámos uma reconstrução de Roma feita com base documental em 1773, que mostra claramente uma pirâmide, em primeiro plano, e duas outras, mais afastadas:

Podemos suspeitar que as pirâmides de Remo e Rómulo sempre lá estiveram... ou seja, foram elas a razão de Roma ter aparecido ali com aquela lenda. Podemos suspeitar que a atribuição do nome a Cestius, ligado ao magistério sagrado dos Epulones, foi afinal uma simulação à época de Augusto, um dos "supressores de memória".
A destruição da pirâmide de Rómulo pelo Papa Alexandre VI Bórgia insere-se assim perfeitamente neste esquema de ocultação, e só será mais estranho que o Papa Alexandre VII tenha decidido recuperar a Pirâmide de Remo, e que esta tenha acabado por resistir pelo menos 2 milénios, tal como as de Gizé.

Apesar desta pirâmide ser inferior a qualquer uma das três de Gizé, não deixa de ter uma dimensão notável, que a coloca próximo da dimensão da Pirâmide da Lua no México:



Se olharmos para este gráfico de pirâmides, não deixa de ser ainda interessante notar que a mais alta está na Coreia do Norte, em Pyongyang, no Hotel Ryugyong. O facto de não sabermos que existia tal coisa monumental na Coreia do Norte, perceber-se-à no contexto do "Eixo do Mal" com que fomos presenteados.


(**) Outra informação sobre a Pirâmide de Rómulo neste texto:
Meta Romuli: a name sometimes given in the Middle Ages to a pyramidal monument that stood between the mausoleum of Hadrian and the Vatican (Mirab. 20, ap. Urlichs 106: sepulcrum Romuli quod vocatur meta; Graphia 16, ap. Urlichs 119).1 It was called meta alone (see references in LS I.161, 186-189; DAP 2.viii.1903, 383-384; memoria Romuli (Ordo Benedicti in Lib. Cens. Fabre-Duchesne,º ii.153; Mon. L. I.525); Ant. di Pietro ap. Muratori SS xxiv.1038, 1040, 1062 (1413-1417 A.D.)); and sepulcrum Remuli (Anon. Magl. ap. Urlichs 161: meta quae ut dicitur fuit sepulcrum Remuli qui mandato Romuli in Iano mortuus fuit: et de meta praedicta sicut iam dixi dubitoque non fuit Remuli per Romulum facta, quia illis temporibus Romulus et sui non erant tantae potentiae). Magister Gregorius calls it pyramis Romuli (JRS 1919, 42, 56). At the beginning of the Renaissance it was also incorrectly called Sepulcrum Scipionis (q.v.). The name meta Romuli was probably given to this monument because the pyramid of Cestius (q.v.)  had in some way come to be called meta Remi. It is described as larger than the pyramid of Cestius and of great beauty. From its marble slabs were made in the tenth century the pavement of the Paradiso of S. Peter's and the steps of the basilica. It stood at the intersection of the Via Cornelia and the Via Triumphalis, on the east side of the latter (DAP cit. 383-387), and its southern part was removed when Alexander VI constructed the Borgo Nuovo in 1499 (LS I.126). The rest stood until 1518 at least (LS I.161, 186-189). The monument therefore covered the Borgo Nuovo and the Via di porta Castello at their intersection (besides the literature already cited, see Mon. L. I.525; BC 1877, 188; 1908, 26-30; 1914, 395-396; Jord. II.405-406; HJ 659; Becker, Top. 662. It may be seen in various medieval and early Renaissance views of Rome (LR 560, fig. 214; Cod. Esc. 7v.) 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Viver, mata!

A principal causa de morte é a vida... como sabemos, todos os que morreram tiveram a particularidade de viver antes. Dita esta evidência banal, importa notar que o medo da morte condiciona cada vez mais a forma de viver. O medo da morte foi levado ao ponto de ter medo de viver!

O medo é uma previsão do futuro de resultado nefasto. 
Como qualquer previsão, baseia-se nos dados conhecidos, na educação e experiência do indivíduo. Desta forma, uma educação ou informação dirigida leva a antecipação de cenários nefastos, que assim o próprio nunca ousará experimentar.
Imaginando uma experiência em que voluntários têm que escolher entre dois botões, um vermelho e outro azul, se o indivíduo verificar que todos os que carregaram no botão vermelho foram vítimas de uma descarga eléctrica, não hesitará em optar pelo botão azul. Aí usa o esquema de reflexão, colocando-se na pele do seu semelhante, para antever o futuro. 
Porém, se notar que todos os indivíduos que viu usavam um uniforme vermelho, e sendo o seu azul, ficará na dúvida de associação... deverá prestar atenção à cor, ou apenas à sua semelhança enquanto homem?
Se os condutores da experiência tornarem claro ao indivíduo que o seu uniforme é diferente dos outros, e que deve tomar isso em atenção, o próprio será tentado a levar em conta essa singularidade, e carregará no botão vermelho, como os anteriores, mas pensando que o resultado será diferente, por ter uniforme azul. Os educadores ao sinalizarem a diferença tornam-se parte activa para que a opção seja a mesma! Ao contrário, se os educadores enfatizarem que a cor dos uniformes é irrelevante, o indivíduo tomará a outra opção.
Esta experiência tanto pode ocorrer pelo lado da punição, como pelo lado da recompensa, é indiferente!
Poderá haver alguma excepção, mas o resultado é praticamente garantido na larga maioria... e os educadores, sem necessidade de prestar falsa informação, apenas enfatizando um ou outro aspecto, garantem um resultado esperado para o colectivo dos voluntários.

O papel da educação é assim simples, mas poderoso... define uma linha de raciocínio por mera sugestão opinativa do poder implantado. Com uma educação cumpridora e uma poderosa comunicação social, as informações transmitidas orientam de forma implícita a linha condutora de raciocínio e a acção dos indivíduos.


Vedas
A origem das ideias, a chamada originalidade, é algo dificilmente escrutinável, mesmo num mundo onde a verdade tivesse sido imperativo. Num mundo de sombras, de falsidade e oportunismo conveniente, a questão da originalidade acaba por ser quase indiscernível...
É nesse contexto que surge aqui a menção aos Vedas, já que os textos indianos têm um análogo persa, o Avesta. De um lado aparece Krishna como revelador, e do outro Zaratustra...
Libertando-nos dos personagens, interessa o conteúdo.

O ponto fulcral nas religiões foi sempre a questão da morte, e é especialmente interessante a filosofia indiana que centrou a análise na comparação com os sonhos... grande parte do idealismo europeu acabou por ter essa inspiração em textos antigos. Não apenas nos textos gregos de Parménides e Platão, mas também na filosofia dos Vedas e do Avesta.
Por uma questão de educação ocidental, e ao contrário do que se passou no Oriente, estas filosofias não se impuseram, tendo sido moldadas num contexto judaico-cristão.

É especialmente interessante observar-se que ao mesmo tempo que a filosofia hindu apresenta um Krishna acompanhado de uma vaca sagrada, o Mitraísmo (uma religião que foi popular no Império Romano ao ponto de competir com o cristianismo) coloca o seu herói principal - Mitra - numa cena de sacrifício de um touro:

 
Krishna e a vaca sagrada // Mitra e o sacrifício do touro

As associações do Mitraísmo ao Zoroastrismo devem essencialmente ser vistas como uma deturpação da filosofia de Zaratustra, que não contemplava sacrifícios animais. As diversas versões de uma mesma filosofia ou religião podem ser tão chocantes como judaísmo, cristianismo e islamismo, apesar de usarem todas a Bíblia do Antigo Testamento. Uma simples deturpação essencial pode provocar uma fractura irreparável, aproveitada para diferentes propósitos do original...
Não deixa de ser interessante notar que Mitra usa o barrete frígio, ligado a tantas outras representações, em particular ao símbolo da liberdade.

Mas, não nos afastando do assunto original, retomamos a questão da relação entre sonhos e morte.



Os sonhos e a morte
A nossa experiência de vida tem elementos suficientes que nos permitem compreender o contexto mortal em que nos inserimos. Há uma aparente continuidade que nos define, em que um tempo marcado por níveis de memória une as recordações de infância, de adolescência, e de idade adulta. Porém, é óbvio que não há propriamente nenhuma presença hoje de quem fomos na infância ou na adolescência, ou até mesmo há algumas semanas atrás... Podemos lembrar-nos do que pensámos em certas ocasiões, mas até podemos criticar essa forma de pensar anterior, mostrando a diferença de personalidade na evolução. Ou seja, podemos considerar que a personagem que fomos em jovens foi morrendo sucessivamente, renascendo em cada evolução da personalidade. A criança e a ingenuidade que tivemos desapareceu nas malhas do tempo para dar origem a uma personalidade de adulto diferente... não necessariamente menos ingénua.
Ninguém lamenta propriamente a morte da criança que foi, que resultou de um adquirir da experiência ao tornar-se adulto... aquilo que causa lamento na maioria dos mortais será a antevisão de um fim sem continuidade. Daí surge o refúgio espiritual em diversas crenças...

O problema é portanto colocado numa descontinuidade, num fim previsto.
Aquilo que é desconsiderado pelo próprio é a sua experiência de descontinuidade - ao sonhar!
Quando caímos na cama, estamos prontos a abandonar, sem problemas, sem medos, a nossa personalidade.
Vamos entrar numa outra percepção, e quando lembramos os sonhos, é-nos revelado que fomos naquele espaço de tempo alguém diferente. Alguém que apareceu do nada, que viveu uma pequena aventura, que não sabia que estava a dormir, e que encarou aquela situação como real.

Neste caso não há um medo de descontinuidade, pela experiência adquirida... adormecemos, mas não morremos, e como antevemos voltar ao estado anterior ao sonho, a situação é tida como passageira.
Imaginemos que um ser só teria o seu primeiro sonho, só dormiria pela primeira vez, aquando da puberdade, por exemplo... nesse caso sem dúvida que sentiria alguma angústia por uma experiência que consideramos banal, mesmo que lhe garantissem que voltaria a acordar.

Para quem já teve a experiência de um sonho em que morre, sabe perfeitamente o que acontece - acorda!
E acorda porquê?
- Acorda, porque o cérebro não sabe/pode fazer a continuação de um sonho em que morre.
O indivíduo continua a pensar, e no entanto deveria estar morto!
Entra numa contradição e a solução aparece miraculosamente - afinal era apenas um sonho!
Assim, tudo encaixa logicamente, e a contradição desaparece...

A questão que se coloca então é a seguinte, por que razão se há-de pensar ser diferente com a vida normal?
Porque o indivíduo vê os outros morrer, e por reflexão assume que irá desaparecer tal como eles... mas isso também não é diferente no sonho! É claro que os personagens do sonho vão desaparecer quando o indivíduo acorda - logicamente o universo dos sonhos não é o mesmo universo onde se acorda.
Ou seja, haverá uma separação de percursos, mas não necessariamente um fim. Os elementos do sonho ficaram na memória, internamente... afinal onde sempre estiveram, e o sujeito entra numa nova realidade, que afinal já conhecia, mas que lhe tinha sido momentaneamente vedada, enquanto sonhava.

Não sabemos porque fazemos isso, o sonho não aparece como controlado por nós, e é suficientemente estranho abdicarmos da nossa personalidade, a ponto de não termos consciência de que estamos a sonhar. Entramos num novo personagem, num universo que pode até ter novas regras, diferentes das que experienciamos - há quem sonhe ser capaz de voar, e isso aparece como possível e plausível. Pode haver a vontade de permanecer nesse sonho, caso seja positivo, mas inevitavelmente termina e entramos numa nova consciência... que não é encarada como nova, pois o período de fantasia é apenas um lapso temporal numa vida diferente. Mas é uma descontinuidade...
Com essa descontinuidade deveríamos aprender a não temer outras descontinuidades... como a morte!

Na Dinamarca, após Kierkegaard, que se inspirou fortemente na filosofia indiana, também Hans Christian Andersen acabou por fazer uma interessante fábula em 1850, denominada "Olavinho fecha os olhos", onde Morfeu e a Morte aparecem como irmãos! Desmistifica por completo o pesado conceito da Morte, comparando-o a um irmão mais velho do Sonho, identificado a Morfeu!

Não é difícil perceber que estes assuntos estiveram presentes desde a alvorada dos tempos humanos, mas só foram passando de forma alegórica, pela forte censura, que foi sendo recorrente. As pretensas originalidades dos filósofos gregos, ou ainda da Idade Contemporânea, pouco mais são do que adaptações autorizadas, já com alguma roupagem despida da alegoria poética.


Verbo
É curiosa a religiosidade ocidental, que assume uma entrada num outro universo.
Essa concepção não é exclusiva de fenómeno divino, ou seja, é perfeitamente plausível a recuperação de corpos dados como mortos, dentro do materialismo. Eventualmente, com uma tecnologia mais avançada do que aquela que conhecemos, seria possível recuperar um sujeito dado como morto. Para quem acredita no absoluto materialismo, chega-se ao ponto de se congelar para a posterioridade.
Isto é totalmente ridículo, no sentido em que não se percebe que o pensamento nunca é algo estático... não existe como estático no tempo.
A nossa linguagem é prova disso.
Os verbos denotam sempre uma acção temporal, nem que seja a mera contemplação.
O "ser" invoca um tempo prolongado, indefinido ou infinito, enquanto o "estar" refere algo temporário.
Querer congelar o pensamento é como querer congelar o movimento de uma flecha... podemos ficar com a flecha, mas nunca podemos ficar o seu movimento.
Querer congelar o pensamento é como querer ouvir música num único instante!

Suponhamos que sim, que o indivíduo congelado acordava num ambiente sofisticado, no futuro... se quem o acordasse o fizesse crer que tinha acabado de chegar ao Céu, ele ficaria convencido?
Ou seja, basta a capacidade de ressuscitar um corpo aparentemente morto para se invocar uma ocorrência divina?
A palavra habitualmente usada é Céu... como se houvesse no espaço exterior essa capacidade. Houve sempre a tradição natural de um funeral rápido, onde o corpo seria definitivamente ocultado.
Ou seja, uma civilização extraterrestre com uma tecnologia avançada que substituísse um corpo, dado como morto, por uma réplica, recuperando o original para uma vida suplementar, poderiam essas entidades ser vistas como deuses?
Mas... nem é preciso ir tão longe! Há organizações estatais que simulam a morte do indivíduo, fazendo-o reaparecer com outra identidade, numa outra parte do mundo... e quem por acaso reconhecer essas pessoas pensará estar a ver uma assombração! Digamos que seria como esconder Elvis, e fazê-lo reaparecer pontualmente em alguns pontos dos EUA...

Tal como a filosofia não teve nenhum avanço especial nos últimos séculos, também não é claro que a parte científica esteja em progressão original face a uma antiguidade distante (basta invocar o mecanismo de Anticitera, ou as baterias de Bagdad, para se perceber que houve conhecimento escondido durante milénios).

Convirá assim distinguir uma simulação de ressurreição, com eventual recuperação do indivíduo num contexto material possível, de um efectivo reaparecimento num contexto de efectiva morte, onde seria impossível qualquer recuperação física. Num caso o indivíduo poderá aparecer num contexto novo, sujeito ao desígnio de quem o recuperou, no outro caso o processo será natural.
É aqui importante distinguir a prática indiana - que ao incinerar o corpo torna impossível qualquer recuperação física, da prática de enterramento ocidental - onde alguns corpos permanecem em estado razoável que não excluem uma recuperação sofisticada!
Num contexto de recuperação por entidades dominantes pode ocorrer justamente uma situação particularmente estranha, onde o arbítrio dessas entidades decidirá um destino intermédio... e nesse novo contexto poderão existir lados que se degladiam, quais anjos e demónios, achando correcto ou incorrecto essa arbitrariedade intermédia.

A situação é assim complexa, e esse escrutínio de complexidade é normalmente evitado, terminando as discussões pela simples consideração da existência ou não de vida para além da morte... o tema deste texto é justamente mostrar que a discussão não termina aí!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Paradoxo do Pensador

Há alguns paradoxos que fizeram história, e outros que simplesmente não se encontram escritos.
Os paradoxos mais famosos talvez sejam os de Zenão, que têm 2500 anos... e dizem respeito à noção de inifinito, e à sua relação com o espaço e o tempo. Após discussões milenares, a reintrodução da análise infinitesimal e a sua formalização, no final do Séc. XIX, vieram colocar algum descanso nos seguidores de Heraclito... a "flecha podia mover-se", e "Aquiles poderia apanhar a tartaruga"! Não deixa de ser interessante ver regressar o problema na teoria quântica, no Efeito de Zenão Quântico, que basicamente revela que a observação sucessiva de um sistema faz com que ele não se mova. O assunto aqui não é um paradoxo físico, será mais um paradoxo cognitivo.

Um paradoxo cognitivo simples de exemplificar é o "paradoxo do mentiroso"... já que ao ler-se "Esta frase é falsa!" pode cair-se na diferença entre o conteúdo e a interpretação. Quando lê o conteúdo o receptor assume que se trata de uma verdade, e depois de a interpretar é revelado ser falsa. Portanto, se voltar a lê-la, pode usar a prévia interpretação e cairá na aparente contradição repetidamente. 
Algo semelhante pode ser encontrado na frase de Sócrates - "só sei que nada sei"... pois não sabendo nada, nem isso poderia saber. Isto apenas mostra a flexibilidade da retórica, que pode simular paradoxos, misturando leitura com releitura. Na primeira leitura vamos ser informados de que o único saber de Sócrates é "nada saber", mas depois se interpretarmos, vêmos que nem essa frase Sócrates sabe... e por isso coloca-se apenas na posição de dúvida total, admitindo implicitamente que poderá saber, mas "não sabe se sabe"... Alternativamente, poderia ter dito "não sei se é verdade o que sei", mas a frase escolhida transmite ainda uma ideia de humildade, que terá ficado bem na "fotografia dos tempos".

Mais interessante é considerar o conhecimento e os seus limites.
Através do trabalho de Gödel, em 1930, ficou claro que há afirmações (proposições) que não podem ser provadas se são ou não verdade. Partindo de um número finito de verdades (axiomas que não questionamos), haverá verdades que escapam a uma prova por dedução lógica, partindo das iniciais. Baseado nos resultados de Cantor, este teorema de incompletude terminou com escolas de pensamento matemático do início do Séc. XX, de Russell e Hilbert.
O resultado foi mais "dramático" no sentido em que reduziu a pretensão do conhecimento humano e as aspirações ao infinito do que é finito. A hipótese do contínuo é uma das afirmações que não pode ser provada ou negada, partindo dos axiomas habituais...

Paradoxo do Pensador
Podemos entender que pelo pensar há uma evolução do que se conhece, entre o instante antes de pensar, e o posterior a esse pensamento. A questão que se levanta - ou melhor, que aqui já levantei - é a de se saber se o pensador controla ou não esse pensamento. Já respondi que não... mas vamos concretizar, para além das evidências óbvias que enumerei - o não saber o que se sonha, como ou porquê "o próprio" gerou esses sonhos, ou tão simplesmente não conseguirmos evitar que certos pensamentos nos ocorram.
(GG, 2005)


Qual então o paradoxo do pensamento?
É semelhante à questão do calcanhar de Aquiles...
O observador coloca-se sempre numa posição de raciocínio externo ao que observa. Assim, não faz parte do que vê. Forma ideias sobre o que observa, mas não se observa a si mesmo. Para se observar a si mesmo, teria que se colocar como externo ao seu pensamento - é aí que surge a contradição. Poderia considerar-se que o infinito resolveria esse problema... mas é indiferente.
Tétis também precisou de pegar nalgum ponto de Aquiles para o submergir na invulnerabilidade do Rio Estige, no caso foi o calcanhar.
Aqui, a vulnerabidade do pensamento é criar a ilusão de que é interno. Definimo-nos pelo pensamento, mas este não é definido por nós.

É definido por quem? - é indiferente, é-nos externo, e será externo a quem julga que o define, se for pensante.
É externo ao próprio, mas está dentro do Universo que o influencia... da mesma forma que o próprio se pode ver como externo ao que influencia. Estabelece-se assim uma dualidade, entre o próprio e o seu exterior, de forma inseparável.
No fundo esta relação primeva pode ser encontrada numa separação cartesiana entre o "eu" e o "não-eu", entre o observador e o observado. Esta relação não pode ser trivial, sob pena de previsibilidade total... um excessivo controlo e omnisciência do "eu" levaria a essa trivialidade.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Vera

Podemos colocar-nos numa situação antiga, muito antiga... onde uma comunidade humana acabava de adquirir a capacidade de comunicação entre si, e dividir tarefas de partilha. Numa fase inicial podemos assumir que essa linguagem reflectia uma representação de realidades partilhadas entre os membros.
A certo instante, pode ter-se dado uma cisão... ou de-cisão, de um membro, ou grupo de membros, de transmitir informação errada! Porquê? - A razão primordial mais bela, para esta estória, é o amor...
Suponhamos que um grupo de caçadores partia e se deparava com uma realidade assustadora... quereria partilhar o pânico com os seus filhos, ou decidiria poupá-los a essa informação, que os assustaria? - a decisão de comunicação ficaria para uma idade posterior. Mas poderiam também começar aí as proibições injustificadas... as crianças não poderiam afastar-se, pelo risco iminente que lhes era ocultado. A certa altura, mais tarde, enquanto adultos, receberiam a devida informação? - pode ter sido essa a intenção inicial, mas as coisas podem ter-se complicado.
O mesmo grupo de caçadores poderia regressar com toda a caçada, mas também poderia reservar/esconder alguma para si... mais uma vez poderia haver uma boa intenção inicial - para evitar que tudo fosse consumido, sem planeamento. No entanto, estes processos uma vez iniciados levam a uma quebra de confiança... cuja justificação se torna cada vez mais difícil, e aceitável pelos que foram enganados.

Este processo simples e casual, como acabamos de descrever, leva a uma cisão profunda - criam-se duas (ou mais) realidades. Os detentores da informação sentem um poder inicial, o poder de transmitir uma realidade distinta da que conhecem... o poder da mentira. Se os outros forem levados a acreditar numa certa realidade, até que as evidências o desmintam, essa será a única realidade que conhecerão, como consequência da sua boa fé. Se tiverem "bons" motivos, e justificação compreensível para essa ocultação de informação, podem esperar atenuar as reacções.
No entanto, é claro que no embate entre uma realidade fabricada e a realidade percepcionada há um desequilíbrio que mais tarde ou mais cedo criará brechas na fábrica e no fabricante.

A situação de desequilíbrio manifesta-se de várias formas, começando pelo desajustamento da noção de Verdade. A Verdade deixa de estar ligada a uma realidade primeva, e passa a ser uma "verdade social" fabricada... e sobre a relação entre as duas passará a haver muitas "verdades intermédias" consoante o nível de conhecimento dos "factos" que se pretende reportar. Haverá quem seja levado sem perceber a fabricação, agindo dando crédito aos emissores, e haverá quem perceba e esteja consciente de alguma parte da fabricação. 
A "verdade social" mede-se pelo contexto social em que os próprios estão sujeitos... se milhares de pessoas afirmarem que um painel é branco, muito dificilmente haverá uma voz a dizer que o painel é preto - ainda que o veja... sob o risco de ser considerado anormal. Deverá compreender o que se passa, perceber onde está o problema... e agir em conformidade, dentro das suas possibilidades e contexto.

A fabricação de realidade alternativa tanto pode ser um sonho como um pesadelo. Essa capacidade intrínseca que acabou por se desenvolver dentro do cérebro humano, e que simula uma outra realidade (ou interpretação dela), é também responsável pela arte, seja pelo espectáculo, seja pela literatura... leva-nos para mundos alternativos na imaginação. Castrar o ser humano de tal capacidade seria reduzi-lo a uma dimensão pobre, e certamente não teria potenciado este seu desenvolvimento. 
O Homem tem assim capacidade de criar realidades diferentes daquela que presencia, com uma potência infindável, mas estará a caminhar para uma situação de profundo desequilíbrio se pretender que essa fabricação poderá definitivamente ocultar a outra realidade - que o remete aos outros, e à sua  reflexão em si. O caminho do desequilíbrio constante, e sem fim à vista, poderá levar a uma situação de caos irrecuperável, por confrontação com a realidade primeva, que nos definiu e que se sobreporá. Um estado de desequilíbrio perene não é um estado de equilíbrio...

Consoante o conhecimento adquirido, há acções que conduzem a uma reposição do equilíbrio, depois do acentuado desequilíbrio... essas acções são individuais e cada um pode ser agente no sentido de repor o equilíbrio - em sentido inverso, desconstruindo por forma semelhante à construção... sem desnecessários sobressaltos (que poderiam levar a adicionais desequilíbrios).  Perante diferentes estados de conhecimento, os agentes de equilíbrio definem-se pelas acções que conduzirão a esse equilíbrio... que será necessariamente um equilíbrio dinâmico.
A dinâmica e o equilíbrio não se irá esgotar nos seus intervenientes actuais... mas começará certamente pelas acções desses!
A balança, a libra, é ainda raiz da libredade... uma liberdade consciente do equilíbrio em jogo, acessível a todos os seres pensantes, com o devido estímulo educacional.

Este é um texto que começa e que se relaciona com a noção de amor, com a necessidade de dar tudo, pedindo em troca apenas a reflexão... será esse o nosso papel construtivo no sentido do equilíbrio.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Cores (3)

Na sequência iniciada aqui, e atendendo aos 3 níveis explícitos no texto Sapiens Sapiens, temos uma antiga libra:

A refracção da luz foi estudada por Newton, que clarificou a dispersão da luz branca, no prisma
ficando assim clara a decomposição que também é visível no arco-íris
(efeito da refracção numa "gota de água")

Esta explicação que trouxe luz a uma antiga questão física, teve ainda interpretações metafísicas (John Locke). As cores há muito que tinham ainda um significado simbólico, cujo aspecto político mais explícito terá sido colocado na Revolta de Nika.

Para além de todas as variantes concorrentes, colocando mais ou menos luz sobre o assunto, na divisão sobre as três estruturas, parece-me indicado considerar o vermelho como respeitante aos homens, um animal sapiens, o verde para os restantes animais (não sapiens), enquanto que o azul será para toda a parte não animal, sem dúvida a mais vasta, e que suporta as anteriores.

A divisão triangular, com 3 cores base (RGB), nada tem a ver com o triângulo de cores. Tem aqui a ordem que sai da refracção prismática, e não poderia estar proporcional (para isso, a parte não animal deixaria as restantes como um simples ponto), estabelecendo-se a descontinuidade nos três estados de consciência.
Se o prisma estabelece uma hierarquia que vai do vermelho ao violeta, fica evidente no círculo cromático (no outro lado da balança) que essa diferença se pode dissipar numa continuidade.
Colour Wheel e correspondente no espectro visível
(o rosa e o púrpura não aparecem como cores do arco-íris)
(no nosso caso, consideramos uma progressão da saturação 
inversa - não dirigida a um centro, mas sim ao exterior)

A provar que a questão das cores não foi apenas um assunto técnico, Goethe escreveu uma Teoria das Cores, onde apresentou a sua roda:
Goethe decidiu classificar as cores com outros atributos... do belo vermelho, passando por um nobre laranja, um amarelo bom, um verde útil, até um azul mau e um violeta desnecessário!
É habitual dizer-se que "cores não se discutem", resta perceber em que contexto isso se diz...
A opção entre pirâmides e rodas é até constatável na alimentação... com a apresentação da pirâmide alimentar ou com a alternativa roda dos alimentos (que terá caído em desuso).

Como é mais ou menos óbvio, do topo da pirâmide, a estrutura pensante (o Homem) decide considerar que tudo o que está abaixo está à sua disposição e serviço. Do ponto de vista puramente materialista, essa estrutura irá porém desagrupar-se, pela sua morte, e o homem regressará ao imenso reino não animal.

O refúgio do ego é normalmente admitir que a Fortuna reservou para o próprio uma sorte diferente.
Apesar de mudarem os tempos, não mudam as vontades... e a vontade dificilmente será um equilíbrio dinâmico, a vontade é sempre colocada em termos da singularidade e do desequilíbrio, donde o próprio emergiu abençoado pelo acaso das circunstâncias. Nessa perspectiva, o ego está demasiado preocupado em justificar a sua singularidade nalguns actos, para sequer admitir ser fruto de uma sucessão de "acasos", que não controlou... começando pelo nascimento e contexto circundante.

Na realidade, nem tem controlo sobre si próprio... seja pelo simples facto de não saber se vai sonhar ou não, nem tão pouco saber o que vai pensar, ou por que razão o pensou! Aí, apesar de tudo parecer fruto do acaso, o próprio assume como pertença sua um acaso que não controla!

O panteão de divindades foi assim substituído por uma única deusa - a Fortuna. A maior parte do discurso simplesmente substituiu a noção de um Deus providencial, por um simples acaso. A diferença é mínima, apenas mudam os nomes, mas é máxima... aumenta a inconsciência da ignorância, e também aumenta o desconforto pessoal. Esse desconforto ocorre pelo Homem não se assumir como é, mas sim por um constante e insaciável desejo de controlar o incontrolável... ou seja, tudo. O próprio fica assim numa eterna dívida para com as suas aspirações, e verá os restantes homens como ameaças para as mesmas aspirações.

domingo, 31 de julho de 2011

Tempestade Saturnina

Em Dezembro de 2010 ocorreu uma "tempestade" em Saturno, de tal forma grande que foi observada primeiro por astrónomos amadores... 
Este facto é em si insólito, já que ocorrências nos planetas (não há assim tantos...) é suposto estarem a ser monitorizadas por profissionais. Segundo o site do CICLOPS (Cassini Imaging Central Laboratory for Operations), registou-se o seguinte:
[These raw] unprocessed images of Saturn were taken on Dec. 24, 2010. They show an enormous storm in the northern hemisphere of the planet, seen earlier by amateur astronomers and now seen clearly for the first time by Cassini.
Alguém perguntou ainda quando tinham sido vistas pelos "amadores", mas não obteve resposta...
Este grande acontecimento teria sido uma oportunidade única, já que a Sonda Cassini estava perto, e por isso "exigiam-se" imagens com algum detalhe, melhor do que as que os amadores viam nos seus  telescópios. As imagens tiradas no dia 24 chegaram no dia 27 de Dezembro, mas a velocidade da luz demora o mesmo para a Cassini do que para os amadores. Não sei se se falou muito mais do assunto...

Esquecendo esse detalhe, pegando na imagem depois divulgada pela NASA vemos uma mancha esbranquiçada, digamos demasiado esbranquiçada:

Porquê demasiado esbranquiçada?
Se colocarmos um bocadito de contraste (gama) na imagem, fica mais claro o que pretendemos salientar:
... ou seja, não parece haver qualquer continuidade entre a imagem do planeta e a imagem da mancha!
Para quem já usou ferramentas de imagem, sabe que uma coisa destas "parece" uma mistura de duas imagens diferentes.
A partir daqui, eu aconselharia a quem quiser ter imagens de Saturno, ou outros planetas,  a comprar um telescópio, e regressar aos velhos métodos! Mas, não há dúvida que as imagens da NASA são habitualmente bem mais bonitas...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Naica e os cristais gigantes

Na mina de Naica, no meio de um deserto mexicano, zona de Chihuahua, foi encontrada em Abril de 2000 uma surpreendente caverna, a uma profundidade de 350 metros.
Naica project (imagem) Discovery channel

O notável é a dimensão dos cristais que se produziram... estamos habituados a ver formações de cristais deste tipo, mas em escalas 10 vezes menores. Aqui os cristais surgem como autênticas colunas que atravessam a caverna. Quando vi estas imagens pensei que se tratava de manipulação fotográfica (... já começamos a pensar assim, de forma naturalmente desconfiada), porém o assunto tem merecido a devida atenção científica, como podemos ver na reportagem do Discovery Channel:


Numa região "Chihuahua" é um pouco irónico encontrar estruturas gigantescas.
Porém esta descoberta não é propriamente um "grande mistério", só o será em termos da escala, e deveria levar os geólogos a reverem algumas das convicções enraizadas. Contudo, é até engraçado ver na sequência de vídeos a equipa de especialistas a tentar produzir uma data... o esquema é o "mesmo de sempre", ver o crescimento hoje, durante um ano, e depois dividir pelo tamanho dos cristais! É assim que se faz ciência... o que se mede hoje e aqui serve para toda a eternidade e mais além! Não é que seja um exercício inútil, e pode dar uma ideia... o problema é que passados uns anos esta "primeira aproximação" já serve para quase tudo! A maior piada que daí resultou são as medições astrofísicas e as conjecturas sobre o "início do universo"...

O único ponto aqui, para além de apontar as notáveis imagens, será enfatizar que estas estruturas se encontraram a 350 metros do solo... Nem sequer estamos a explorar a 1 Km no interior da Terra, e já estamos a encontrar estruturas menos vulgares - que parecem doutros tempos, digamos de um tempo de gigantes. A crosta é suposto ser bastante maior, podendo atingir perto de 100 Km... pelo que há uma "infinidade" de desconhecimento interno, especialmente se notarmos que nem a superfície (por exemplo, as profundezas marítimas) estão bem identificadas. O modelo mais simplificado, que remonta a Rayleigh, já foi revisto para comportar uma divisão entre litosfera e astenosfera, pelas inconsistências das medições sismográficas do terramoto de 1960 no Chile.

Não será novidade dizer que bastarão 100 metros de entulho em cima da nossa "avançadissima" civilização, para que ninguém suspeitasse que aqui alguma vez tinha existido alguma coisa! No sentido contrário, talvez se escavássemos a algumas centenas de metros aparecessem mais grandes surpresas, de outros tempos... 
Bom, e quem pode fazer perfurações na Terra? 
As indústrias petrolíferas... e as perfurações vão continuando a ser necessárias, porque o petróleo continua a não ser substituído por fontes alternativas de energia...

sábado, 23 de julho de 2011

O leão de Techialoyan

Os códigos de Techialoyan são documentos aztecas tardios (entre 1685-1700) que parecem reflectir registos de propriedade, que estavam a tentar ser recuperados. Para além de usarem já um alfabeto latinizado, são de uma produção independente, e mantêm figuras muito interessantes.
Uma dessas figuras é o Leão
Qual o contacto que os Aztecas tinham com esse animal, a ponto de o incluírem nestes textos?
Tinham os espanhóis levado leões, que impressionaram os Aztecas? Havia leões no México?
Um coração e um leão... coração de leão, são invocações estranhas, que dificilmente se justificam numa produção independente de carácter local. 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Toy Story III

Uma das secretas vantagens da paternidade é a possibilidade de rever com outros olhos as histórias que nos encantaram na infância. Quando ao príncipe Filipe são dadas a Espada da Verdade e o Escudo da Virtude, para combater os esbirros do Dragão (uma encarnação da Maléfica - a fada negra despeitada por não ter sido convidada para o nascimento de Aurora), essas designações pesam de uma forma diferente, e as palavras carregam um significado. 

Para além desses clássicos, que não ficaram clássicos fortuitamente, aparecem sérias surpresas.
Foi o caso de Toy Story 3, que estreou há um ano.

É difícil encontrar tantas imagens de história enredadas numa estória, e basta não recusar vê-las.
Estes personagens vivem no mundo criado pelo autor das estórias, um miúdo Andy, que cresce e acaba por relegá-los para uma arca. Por outro lado, têm personalidade própria focada no objectivo de reconquistar a sua atenção... ou alternativamente a atenção de novas crianças.

Essa alternativa, entre a fidelidade ao dono original, ou a aceitação de um infantário, com um mundo de brinquedos tiranizado - ao género Big-Brother - por um urso (Lotso), levará o conjunto de personagens numa diáspora para encontrar Andy. Alguns detalhes são deliciosos... perante o nome ANDY no sapato, um dos personagens já não sabe se deveria ler ao contrário YDNA, enquanto nome do seu senhor. 
Conforme já abordámos, houve uma inversão no sentido da escrita do alfabeto, cujas origens e razões se perdem nas estórias da História, e quanto à diáspora de um povo na procura do Senhor, acho que também não é preciso elucidar mais.

E se o herói persistente que não desiste de procurar e acreditar em Andy é o cowboy americano, há um sentimento ambivalente que o une aos outros personagens. Um dos quais é uma peculiar batata caolha, vidente porque um dos olhos ficou na casa de Andy... confirmando assim que Andy não os abandonou.
Um aspecto curioso é o desvendar da história do urso Lotso (uma vez mais um problema de rejeição...), que permitirá ao grupo ter o apoio do Bebezão, e livrar-se do esquema prisional Big-Brother que imperava no infantário Sunnyside. E se Lotso parece redimir-se, será uma sua nova traição que colocará todo o grupo perante um destino funesto numa fornaça de lixo... de onde vêm a ser salvos pelos companheiros extraterrestres! 

De forma divertida, apelativa para a generalidade das crianças, o filme é muito aconselhável a adultos, explicitando o perigo de uma sociedade dominada por um sistema central corrompido com senhores e escravos. Mas não só... faz diversas referências históricas implícitas, ao mesmo tempo que aborda de forma filosófica original uma relação transcendente entre o sentido da vida dos personagens e a sua dependência do autor das histórias. 
Obviamente, este filme mereceu bem o Oscar recebido!

domingo, 10 de julho de 2011

Kazan e Kursk

Poucos anos após a Restauração da Independência, em 1646, D. João IV institui a Imaculada Conceição como padroeira nacional. O facto tem especial interesse pois anteriormente, na primeira dinastia, seria invocado Sant'Iago, e na segunda dinastia invocava-se São Jorge em batalha - sendo estes os padroeiros nacionais anteriores. 
Esta mudança invocava uma posição católica clara, já que um dos pontos de maior controvérsia entre protestantes e católicos era a tendência politeísta do catolicismo, quando o culto mariano e o culto dos santos começou a revelar um panteão divino. Para vermos a adesão popular ao culto mariano basta reparar que não tem equivalente a manifestação de festas, igrejas, e outras invocações a Nª Senhora, implantadas no catolicismo ibérico.
A posição portuguesa é complicada pois revela uma dualidade na conjuntura de Vestfália. Portugal independente procurava algum apoio da coligação que tinha esmagado os Habsburgos e o Sacro-Império, mas por outro lado iria acentuar a sua faceta católica ligada à Igreja Romana, onde estaria ligado à Espanha. Aliás, as pazes com Espanha ficaram praticamente definitivas desde o Tratado de Lisboa de 1668. Esta influência geral do culto mariano é ainda notada no estabelecimento da Nª Sra. de Guadalupe enquanto padroeira das Américas.

Kazan
Para além desta acentuada manifestação mariana ibero-americana, também na Rússia se notou um importante culto mariano. Um dos casos icónicos é a história da Nª Sra. de Kazan, imagem encontrada em 1579 na cidade tártara de Kazan, na República do Tartaristão. Este precioso ícone foi associado pelos russos à protecção da invasão polaca-lituana de 1612, invasão sueca de 1709, e napoleónica de 1812, tendo sido roubado em 1904.

O importante ícone russo encontrado em 1579 (ano que se segue a Alcácer-Quibir) vai depois ter uma história portuguesa, através do Exército Azul - Apostolado Mundial de Fátima

Esta organização americana associa-se à promessa de conversão da Rússia comunista, colocando a sua sede em Fátima. Em 1993, quando já é efectiva essa mudança na Rússia, oferece a João Paulo II uma Nª Sra. de Kazan, comprada em leilão e que estava em Fátima desde 1970. Apesar de se vir a constatar tratar-se de uma réplica do Séc. XVIII, retornará a Kazan em 2005. Lembro bem o edifício com cúpula ortodoxa, que destoava na paisagem de Fátima, que antes era a Pensão do Exército Azul, e é agora o Domus Pacis Fatima Hotel.

Kursk
Outros famosos ícones russos de Nª Senhora são o de Vladimir e o de Kursk:
 

Perante a vitória bolchevique, o ícone de Nª Sra. de Kursk foi levado pelo Exército Branco para a Igreja Ortodoxa Russa de Nova-Iorque
Kursk foi ainda uma batalha decisiva que determinou a inversão do domínio alemão na 2ª Guerra Mundial face às tropas russas. 
Kursk acabou por ficar definitivamente associado ao nome do submarino que, pretendendo honrar esta batalha, teve um triste final em Agosto de 2000, ao ter afundado no Mar de Barents com a sua tripulação de 118 homens, num incidente envolto em controvérsia e mistério.

Porém, o assunto que motivava este texto era outro - a Anomalia Magnética de Kursk.
Em Kursk ocorre a maior anomalia magnética terrestre, já conhecida desde 1733. Ou seja, é uma zona de grande concentração de ferro magnetizado, que localmente afectará as bússolas.
Cristal octaédrico de magnetite Fe3O4 .

A suposta constituição interna da Terra, com um núcleo férreo, é usada como boa justificação para a existência do campo magnético, causada pela rotação terrestre. Porém, não havendo referencial absoluto convém referir que essa rotação terrestre só se manifesta com algum significado através do Sol e Lua. O movimento é relativo, e os únicos corpos de dimensão relativa significativa que testemunham a rotação terrestre são o Sol e a Lua. A teoria magnética fica ainda mais complicada quando é preciso admitir Hidrogénio "Metálico" para justificar os grandes campos magnéticos de Júpiter ou do Sol... na prática significa colocar um gás com propriedades de sólidos, que poderiam ocorrer a temperaturas muito baixas, mas que só se justificam através de pressões muito altas, numa zona onde é também suposto ocorrer a fusão nuclear, responsável pelas altíssimas temperaturas... um caldo de explicações e teorias com muita fé, que poucas vezes batem certo! É uma fé mais sofisticada do que aquela que se manifesta nos ícones de Nª Senhora, mas que encerra também muitos mistérios...

Nota: Apenas ao acabar de escrever este texto, soube da ocorrência hoje de um naufrágio no Volga, na região do Tartaristão, de Kazan...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Coimbra - Torre dos Cinco Cantos de Hércules

No texto anterior sobre o Culto do Oculto, faltou fazer referência a uma informação que apenas encontrámos passados estes 20 dias, e que o título torna auto-explicativa.
Ao ler uma parte dos Diálogos da Vária História, de Pedro Mariz (1594), fomos confrontados com esta passagem (pag.14):
Entre as quais povoações não foi (segundo parece) a de menor estima esta nossa Coimbra, onde fabricou aquela torre de cinco cantos, que naquele alto vedes situada, a que ainda hoje chamam de Hércules. E deixou o seu nome, não somente a esses campos, que ao longo do Mondego se estendem, a que os Autores antigos chamam Hérculeos; mas também a toda a mais terra, e à mesma Cidade, que por eles é chamada de Hércules; sinal evidentissimo de ser por ele fundada; pois, como diz o outro, não é de todo falso, o que em muito tempo é divulgado por muitos, quando por outra mor certeza o contrário não aparece.
Pedro Mariz deixa um registo que coloca Hércules como autor da Torre pentagonal de Coimbra, que já tinha sido motivo do nosso texto anterior, mas que vimos associada a D. Sancho I... mais acaba por definir que Coimbra teria sido fundada por Hércules e teria levado o seu nome! 

Arriscamos uma estória...
Desde Afonso Henriques haveria ordens para destruir a torre dos 5 cantos... o número 5 das nossas quinas surge aqui como factor anterior à nacionalidade afonsina.
Talvez o fundador, querendo preservar o registo, manda simplesmente disfarçar a situação fazendo uma outra torre quadrada, ao lado. A certa altura passa por ter sido o seu filho D. Sancho a fazer a outra ao lado (situação que já me tinha parecido invulgar...). D. Dinis continua o disfarce, mandando ele fazer uma torre pentagonal no Castelo do Sabugal, tornando assim a torre de Hércules exemplar não único! 
A situação, como sabemos, complicou-se bastante na regência do Marquês... o que levou à terraplanagem e destruição da torre, com a desculpa da construção do Observatório Astronómico!

À falta de outra imagem... fica a outra Torre de Hércules - o célebre farol de La Coruña:
... e é claro que temos que dar alguma voz a Gaspar Barreiros, que se queixava da atribuição a Hércules de tudo o que era construção antiga na Hispânia.

sábado, 25 de junho de 2011

Falk-Colombo

Para quem cresceu com a série Colombo, o detective interpretado por Peter Falk, não se pode deixar de assinalar o óbito desse actor que inspirou o espírito inquisitivo em detrimento de outros métodos nas séries policiais. As razões da sua morte ontem terão sido uma degradação do estado mental, associado a Alzheimer... a crónica doença do esquecimento.

Se tratámos por aqui dos mistérios de Colombo, não poderíamos deixar de assinalar a passagem deste actor que se confundiu com o personagem que resolvia mistérios policiais de forma sui generis. O seu rigor admitia o humor e não necessitava da frieza técnica que se tornou moda em séries como CSI e similares... uma pequena grande diferença.
Se em inglês Columbo é ligeiramente diferente de Columbus, a sua tradução nacional seguiu o nome Colombo, e por isso a notícia da morte de Colombo soa sempre como algo estranho, em que os personagens se sobrepõem aos actores. Peter Falk era caolho direito.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Milho a milhas

Num post antigo do Portugalliae, era apresentado um vídeo de Gunnar Thompson sobre a evidência da existência de milho entre os egípcios:


Não estão aqui em causa os argumentos de Thompson, e seria bom que houvesse imagens em vez de desenhos, mas é óbvio que ele se baseou em imagens reais e tenha decidido não usar material sujeito a direitos de autor. Apesar de estar na internet desde 2009, este vídeo revelador teve menos de 500 visitas, o que mostra bem que não basta divulgar, é preciso que a máquina de divulgação o autorize.

Se admitirmos que o milho é originário da América, isso significaria uma prova da presença egípcia nas américas... essa é uma linha de raciocínio possível, mas desconheço como se pode provar que só havia milho na América, e que daí chegou ao resto do mundo.

O nosso propósito aqui é ligeiramente diferente... numa tradução do livro "Sobre as Faculdades Naturais" de Galeno, feita em 1916 por A. J. Brock, encontramos a seguinte peça:
Or shall we also furnish our argument with the illustration afforded by corn? For those who refuse to admit that anything is attracted by anything else, will, I imagine, be here proved more ignorant regarding Nature than the very peasants. When, for my own part, I first learned of what happens, I was surprised, and felt anxious to see it with my own eyes. Afterwards, when experience also had confirmed its truth, I sought long among the various sects for an explanation, and, with the exception of that which gave the first place to attraction, I could find none which even approached plausibility, all the others being ridiculous and obviously quite untenable.
A palavra corn tem uma tradução que é milho... ou seja o tradutor aceitava que Galeno no Séc. II falava de milho, que segundo consta hoje só seria descoberto na América! Mas a descrição é mais elucidativa:
What happens, then, is the following. When our peasants are bringing corn from the country into the city in wagons, and wish to filch some away without being detected, they fill earthen jars with water and stand them among the corn; the corn then draws the moisture into itself through the jar and acquires additional bulk and weight, but the fact is never detected by the onlookers unless someone who knew about the trick before makes a more careful inspection. Yet, if you care to set down the same vessel in the very hot sun, you will find the daily loss to be very little indeed. Thus corn has a greater power than extreme solar heat of drawing to itself the moisture in its neighbourhood. Thus the theory that the water is carried towards the rarefied part of the air surrounding us (particularly when that is distinctly warm) is utter nonsense; for although it is much more rarefied there than it is amongst the corn, yet it does not take up a tenth part of the moisture which the corn does.
Ou seja, fala-se no Séc. II, concretamente no transporte de milho em vagões pelos camponeses e na propriedade do milho inchar... que é observada em várias coisas (em particular no processo das pipocas).
Não seria acidente o milho inchar, o propósito era aumentar o seu peso para que os camponeses pudessem ficar com algum para seu proveito, sem ser detectado entre pesagens, conforme Galeno explica. O objectivo de Galeno era apenas mostrar um princípio de atracção que ilustrava com a capacidade do milho inchar - "atraindo" o que o circundava.

Este não é o único texto em que vemos referências ao milho.
Por exemplo, na parte sobre a Hispania, na tradução de 1903 de Estrabo diz-se o seguinte:

Large quantities of corn and wine are exported from Turdetania, 
besides much oil, which is of the first quality;


Ou seja, é possível ler que o milho viria da Turdetania (e outras partes da Hispania e Aquitania).

Fica assim claro que no início do Séc. XX não havia a noção de que fosse algo estranho admitir que havia cultura de milho na Antiguidade... as traduções fazem-no com alguma naturalidade. Por isso, é de admitir que só no decurso do Séc. XX houve a fixação de que o milho seria exclusividade americana até aos descobrimentos!

Se o milho é originário das Américas, pois nesse caso ficam mais claras as viagens oceânicas na Antiguidade, caso ainda fosse necessária essa prova adicional... Porém, o que deve ter acontecido é que a cultura do milho na Europa durante a Idade Média, ou desapareceu pelas alterações climáticas, ou foi mesmo proibida (o que é mais natural, talvez até pelo artifício de enganar as pesagens relatado por Galeno).
O milho terá sido então reencontrado e autorizado no decurso das "descobertas", mas tanto pode ter tido a sua origem nas Américas, como pode ter sido levado para a América na Antiguidade.
Mas a questão da "prioridade dos descobrimentos" é o primeiro milho dado aos pardais, o que interessa é a questão da proibição, quem a implementou e por que razões?...

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NOTA IMPORTANTE [03/06/2013]
No século XIX era habitual usar-se a palavra "corn" para grão distinguindo "maize corn" para milho.
Actualmente a designação "corn" é usada para milho... portanto uma boa parte deste texto desfaz-se nesse equívoco de linguagem. Por isso algumas palavras aparecem agora cortadas, e o texto passou a cinzento... não está todo invalidado porque ainda tem como base a referência de Gunnar Thompson.

sábado, 18 de junho de 2011

La Palisse, Roma e Pavia, verdadeira mente

Verdadeiramente, a mente mente...

Vulcano e Poseidon
Há mais de um ano, em Abril de 2010, aquando da erupção de um vulcão islandês que decidiu irromper no momento da divulgação interna do Truth Report sobre a crise financeira, entrei num interessante diálogo no blog arrastão
A referida erupção surgia depois de um início de 2010 especialmente conturbado, marcado pelo mais devastador resultado de um terramoto sem maremoto, em Port-au-Prince. Há quem ache natural reportar-se a morte de mais de 200 mil pessoas no Haiti, por via de um sismo de amplitude 7.1 na escala de Richter. Devemos lembrar que o terramoto na Indonésia, em Aceh, teve amplitude 9, ou seja foi 100 vezes superior, e o número semelhante de vítimas deveu-se ao maremoto que se estendeu por uma larga área no Índico, abrangendo vários países. Sobre o evento já falei no artigo sobre a derrota da Hispaniola, e de forma alegórica num post da altura... porque nem sempre é fácil escrever explicitamente, quando a "situação é explosiva", e o "mundo muda de 15 em 15 dias", usando as oficiais frases governamentais da época.
Os poucos que seguiram o blog alvorsilves, desde o início, perceberão melhor do que falo...

Em 12 de Abril de 2010 era lançado na Islândia o Truth Report, conforme ainda fui encontrar nesta notícia do Telegraph, e a situação ficava mais explosiva para o primeiro-ministro islandês (actualmente a ser julgado). Acumulando a essa situação explosiva, o vulcão entra em erupção e em 14 de Abril passa a ser notícia a proibição de vôos.

 
Protestos populares na residência do Primeiro-Ministro Islandês
e primeiras imagens do vulcão Eyjafjallajökull, de onde saía fumo branco, ou negro?

Sob o ponto vista noticioso a actividade vulcânica do Eyjafjallajökull ocultou o Truth Report islandês. 
Se mal se ouvia falar da Islândia, o Truth Report poderia ter provocado uma explosiva situação espalhando cinzas sobre a Europa, porém no espaço de dois dias passou a ser o vulcão a fazê-lo. Dir-se-à que milhares de pessoas fizeram esta associação sobre o vulcão financeiro, mas não... A situação é ainda mais engraçada, pois no dia da publicação do relatório tinha terminado a erupção doutro vulcão, conforme se pode ler no Iceland Review no dia seguinte (15/04/2010):
Iceland is a strange place. When the “truth report” came out last Monday, the eruption on Fimmvörduháls stopped. To give the citizens some time and space to read it. Two days later, yesterday, another volcanic eruption started. Just a few kilometers away from the first one, at the top of Eyjafjallajökull glacier. A much more powerful eruption. Are the old gods angry?
Não seriam os velhos deuses, sobre esses temeu-se a explosão do Katla, durante dias... Mas, para a pequena intensidade do Eyjafjallajökull seriam mais os semideuses financeiros que elevavam essas cinzas até à estratosfera para depois as deixarem cair sobre a Europa. Tal como a roupa do imperador, as cinzas eram invisíveis... e as vozes de crianças a denunciá-lo estavam abafadas. 

A mente mente, porque a aceitação de informação é condicionada na educação. Ninguém é educado para ler notícias de forma alegórica... e por isso, às vezes, as notícias mais estrombólicas têm informação invisível para a esmagadora maioria do povo.

Foi nesse contexto de colisão de mentes, que fiz nesse blog o papel de criança que denuncia a nudez do império... só que nesta história, a voz criança é abafada na multidão. À excepção de um comentador (cafc), a boa educação dos restantes viu a denúncia das imagens vulcânicas islandesas como uma alucinação isolada de um qualquer maluco.


Mente
O assunto seguiu para uma observação peculiar, que deveria ser notada largamente, mas sobre a qual nada é dito. Os advérbios que terminam em mente, de mentir!
Será caso único? Não é!
Nas diversas línguas (interessa a fonética):
  • Português, Espanhol, Italiano: Advérbio +mente, Verbo = mentir(e), mente (3ª pessoa)
  • Francês: Advérbio +ment, Verbo - mentir, ment (3ª pessoa)
  • Inglês: Advérbio +ly, Verbo - lie/ly 
  • Alemão: Advérbio +lich, Verbo - liegen, liegt (3ª pessoa)
Isto acontece casualmente ou o casual mente?
A origem não é o Império Romano, pois a declinação "+mente" não se encontra no Latim, podendo ser até variável do caso.
Na altura em que coloquei o tema invoquei a sua aplicação nacional pela Lei Mental... a tal que D. João I tinha na sua mente, mas apenas invocando a semelhança do nome, e pela estorieta de estar na "mente" do rei, contudo convém notar que nas obras transcritas de Fernão Lopes já aparece a declinação "+mente" nesses advérbios.

Portanto, a origem desta declinação no mente de mentir parece ser anterior, medieval, mas foi aplicada de forma quase uniforme, ou uniformemente, em línguas cuja raiz era diferente. Como se tivesse havido uma ordem emitida aplicada às várias línguas... ou como se as línguas tivessem sido construídas deixando esse artifício identificador. A hipótese de línguas construídas na Idade Média não é assim tão estranha, já que houve certamente algum processo orientador a nível gramatical. O mais estranho é a declinação "+mente" já que associa duas sílabas tornando esses advérbios as nossas mais longas palavras... nota-se que houve algo propositado, que dá um significado diferente a verdadeiramente e à verdadeira mente.

Para além disso, usamos "Mente" para nos referirmos ao nosso raciocínio, e os ingleses apesar de mais cautelosos usam "Mind" que pode ter um sentido de aviso ou de importância.
A mente acidentalmente revela-nos que o acidental mente.


Roma e Pavia
O assunto deste post seria sobre Roma e Pavia, que "não se fizeram num dia"...
Como é claro, não se pretendia invocar nenhum processo construtivo feito com "paciência de chinês", mas apenas procurar a origem desta expressão, que já é mencionada (pelo menos) no início do Séc. XIX. É claro, pode invocar-se o acidente fonético de "Pavia" rimar com "dia"... mas haveria outras possibilidades fonéticas, sem que se pense que pode haver outra razão mais pertinente.

Na Storia delle Rivoluzioni d'Italia (vol. I) de Giuseppe Ferrari, relacionam-se as duas cidades com a intervenção de Belisário:
Forse a caso sarebbe il Pontefice atterrito e supplicherebbe l'imperatore di tutelare Roma, di proteggere la legge e la fede dei romani, di continuare la guerra di Belisario contro gli ariani di Pavia? Poteva forse darsi una tregua tra Roma e Pavia, tra le due Italie? La guerra doveva durare ed essere più forte, più vasta che l'Italia stessa perchè il cattolicismo interessava la metà del mondo alla causa di Roma, ed anche i Longobardi potevano trascinare nella lotta i loro federati.
Belisario, representação no Palazzo Beneventano, Siracusa

Ou seja, fala-se da invasão bizantina que Justiniano levou a Itália através do seu general Belisário, e mais concretamente fica claro que foi no sentido de resolver o problema Ariano... e insistimos que o Arianismo nada tem a ver com o conceito racial espalhado no Séc. XX, mas tão somente com a teologia monofisista de Arius de Alexandria, que tinha sido adoptada pelos godos, neste caso os Longobardos. De um lado, uma Pisa ariana e do outro lado uma Roma católica... 

Este problema foi ainda mais notório na forma como Belisário, chamado a Bizâncio, resolveu o problema da Revolta de Nika, que pode ser interpretada num conflito de cores partidárias, e na própria elevação de São Nicolau. Este conflito não teve apenas episódio... e passamos a uma verdade de La Palisse!


La Palisse
A expressão verdade de La Palisse tem um significado curioso, já que não remete ao general Jacques de La Palisse, mas sim à deturpação de uma canção em sua homenagem.
A deturpação é reveladora! O verso em francês, cantado postumamente pelos seus soldados, dizia:
S'il n'était pas mort il ferait envie
Porém, quem ler textos antigos percebe  rapidamente que havia uma grafia semelhante entre o S e o F... mais um foco para muitas confusões! A lenda sinaliza bem essa confusão... do verso "se não estivesse morto faria inveja" passamos para "se não estivesse morto estaria vivo":
S'il n'était pas mort il serait en vie
bastando retirar o tracinho do f  e separando "envie" em "en vie", tal como verdadeiramente pode ficar verdadeira mente. A verdade de La Palisse mostra muito mais como uma minúscula alteração de textos pode mudar por completo o seu significado original!

Para além desta relação, o que tem de especial La Palisse, para ainda relacionarmos com Roma e Pavia?
Ora, justamente La Palisse, reconhecido pelas múltiplas vitórias, vai morrer em 1523 na Batalha de Pavia... que opôs o exército francês de Francisco I contra o Sacro-Império Romano dos Habsburgos de Carlos V, algo que pode ser enquadrado numa reedição nas cores do velho confronto de Belisário.
Batalha de Pavia em 1523 (tapetes de Pavia)