quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Nebulosidades auditivas (30)

Irei retomar o Tratado dos Descobrimentos, de António Galvão... do qual disse Manuel Faria e Sousa:
Sua fama durará enquanto houver mundo, pois nela não têm jurisdição reis fracos, ministros maus, fortuna cega, idades caducas...

Galvanize - The Chemical Brothers (2005)
galvanize (v.) 
1801, "stimulate by galvanic electricity," from French galvaniser, from galvanisme (electricity produced by chemical action," 1797, from French galvanisme or Italian galvanismo, from Luigi Galvani (1737-1798), professor of anatomy at Bologna, who discovered it c. 1792 while running currents through the legs of dead frogs). 
Figurative sense of "excite, stimulate (as if by electricity)" first recorded 1853 (galvanic was in figurative use in 1807). Meaning "to coat with metal by means of galvanic electricity" (especially to plate iron with tin, but now typically to plate it with zinc) is from 1839.

«Dos néscios leais, se enchem os Hospitais», disse João de Barros, a propósito da máquina política lisboeta que condenava os heróis da Ásia, ao descrédito ou à miséria, no seu regresso à capital cortesã. A passagem é mesmo colocada sobre este herói das ilhas Malucas, que foi tratado de forma maluca, tendo a sua obra sido apenas posteriormente reconhecida como crucial pelos ingleses.

A passagem proibida na Antiguidade, da qual o Cabo Bojador foi símbolo, era o limite do Trópico de Cancer, que está hoje 3 graus mais a sul desse cabo. Nem o Reino do Egipto se desenvolveu mais para Sul, ficando os seus limites acima do Trópico de Cancer. Havia grande preocupação com os "climas do Mundo", e as zonas tórridas chegaram a ser consideradas "não habitáveis". Claro que esta "preocupação" era apenas ocidental, enquanto na Ásia, da Índia ao Sião, uma boa parte da terra mais habitada, estava justamente abaixo dessa latitude. 

Porém, devemos considerar que, para populações da Idade do Gelo, que assistiram à subida do nível dos mares, submergindo muitas ilhas e linhas costeiras, o clima ideal não era "quente". As populações no enquadramento europeu que quiseram viver no mesmo tipo de clima não poderiam ficar no mesmo lugar... teriam que acompanhar a subida dos gelos, para Norte.

Um argumento que Galvão expõe, para contrariar os que pretendiam que nunca se tivesse perdido o contacto entre as populações no globo terrestre, é que se assim fosse, se houvesse conhecimento de todo o globo, a malícia humana teria confrontado os homens com o seu fim.

Um dos perigos trazidos com os descobrimentos, abaixo do Trópico de Cancer, era já sancionado pelos cartagineses. Para evitar a constituição de reinos formados por desertores das embarcações, o Senado de Cartago instituíra a pena de morte, para os que tentassem "não regressar".

Ou seja, o medo da cabeça do reino era a possibilidade dos governadores ganharem protagonismo, e tal protagonismo seria visto como semente de um cancro, de uma nova cabeça, contra a organização regente. Assim, os heróis da Ásia foram vistos como perigosos cancros para a cabeça cortesã, especialmente nos casos em que os chefes locais os consideravam, ou os queriam tomar, como efectivos reis de seus povos - e esse foi o caso de Albuquerque ou de Galvão. 
Pouco importou que Galvão não tivessem aceite, que tivesse cumprido as ordens da corte, regressando vassalo e pobre perante o seu rei (tendo aliás gasto a sua fortuna familiar em proveito do reino). Apenas ficou com a sopa dos pobres do Hospital de Lisboa.

Aos jovens que nascem numa sociedade são-lhes mostradas estrelas, pontos individuais brilhantes, que servem a muitos como guias para um caminho de sucesso. Vêem-nas como independentes, com luz própria, e julgam que o seu caminho também poderá traçado nessa independência, reconhecida naturalmente pelos outros. Desconhecem que se tratam apenas lâmpadas, holofotes, luzes alimentadas por uma fonte de energia oculta, luzes que se extinguem ao simples premir de um botão. Assim, quando se procuram mostrar, evidenciar o seu talento, esperam reconhecimento, mas são simplesmente remetidos ao funcionamento mecânico da sociedade (... no caso do vídeo, entregues ao cuidado da polícia).

Agora, é claro que um corpo social estabelecido despreza a individualidade. Só tem interesse em enaltecê-la, porque ao longo dos tempos os corpos sociais que mais reprimiram a individualidade foram também aqueles que rapidamente definharam, por falta de criatividade. Assim, o corpo social vê-se forçado a ter que conviver com os excessos da individualidade, e a reprimi-la para que o corpo social se mantenha coeso acima de qualquer individualidade. Os casos de revoluções podem ser vistos como infecções temporárias, das quais o corpo irá recuperar... ou mesmo perecendo, pela substituição de ideias ou estrutura, será caso temporário. Afinal as células da sociedade anterior estão programadas para funcionar na lógica de um corpo social, e aceitarão outra cabeça, desde que haja lugar no corpo. 

No entanto, convém notar que a evolução não privilegiou os seres multicelulares... e ainda hoje temos como recordista de comprimento de ADN uma simples ameba, um ser microscópico unicelular. Aliás, a quantidade de seres unicelulares excede brutalmente aqueles que abdicaram da sua individualidade e optaram por formar corpos multicelulares. No desenvolvimento desse organismo multicelular uma sua célula desconhece por completo a consciência do corpo, que se desenvolveu numa diferente dimensão.
E o erro será pensar que essa consciência é resultado da estrutura... a contrario, devemos pensar que a estrutura apenas serviu para albergar de maneira satisfatória uma consciência externa. Ora, não há nenhuma razão particular para essa estrutura biológica ser um organismo derivado do macaco... se esquecermos o tamanho do cérebro que cresceu nos seus derivados humanos. Ou seja, podemos vir a ser confrontados com manifestações de consciência externa noutros animais... e isso tanto mais quanto mais os humanos reduzirem as manifestações individuais, fechando ao caos os limites da sua expressão, ou quanto mais os humanos não quiserem abrir os olhos e ouvidos ao que a Natureza tem para dizer. A evolução dos corpos sociais, no sentido do seu mero aumento, não leva a nenhuma abertura de possibilidades, apenas segue o caminho dos dinossauros - grandes bestas dirigidas no seu único propósito digestivo.


Corvos... (outros exemplo, exemploexemplo)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Afinal o mar estava flat

Após ver tanta notícia acerca das "ondas gigantes" do canhão da Nazaré, decidi ir este domingo ver o que se passava... não havia muito que enganar : 
No domingo, uma grande fila a dirigir-se ao Sítio da Nazaré, ou à Praia do Norte, e para quê?

Canhão da Nazaré - Praia do Norte - 27 de Dezembro de 2015... Afinal o mar estava flat!
Agora reparei que a notícia da Surf Portugal já não falava em "ondas gigantes", falava em "ondas grandes". Ora, quem já foi várias vezes à Nazaré, espera ver ondas grandes na zona do Forte, ou na Praia Norte. Nunca tinha visto, nem ouvido falar por lá de "ondas gigantes", antes do Garrett McNamara aparecer. 

No entanto, desta vez as ondas nem sequer eram grandes, pode-se dizer que "o mar estava flat"... e ainda não foi desta que vi «a coisa». De quinta para domingo parece que o mar se cansou de puxar pelas ondas, e dir-se-ia que ficou um dos dias mais calmos em termos de ondulação. 
Canhão da Nazaré - Praia do Norte - 27 de Dezembro de 2015... ondas de menos de 3 metros.
Portanto, para apanhar as ondas gigantes pode ser tanto questão de sorte, como questão de fé... algo muito apropriado à conjugação do nome Nazaré com a natividade de Jesus.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Every thing in its left place



Quem vê a repetição, nunca está na repetição.
Resposta a pergunta doutrem, com custos que serviriam para filmes doutras dimensões.
Não se sente a perda do que é subtraído pela amnésia de uma pancada, mas presumo que o que nos é inerente segue o seu caminho de reencontro, nem que demore uma década. A mesma inquietação, a mesma solução. Mais outra década para perceber que a resposta já tinha sido dada, porque afinal a amnésia não afecta rascunhos escritos. Porque as coisas importantes têm datas, e o resto são co-incidências que seguem o caminho de se colocarem no sítio certo da atenção.

Everything in its right place - Radiohead (Vanilla Sky Soundtrack)

As coisas não estão no sítio certo, estão no sítio que lhes sobra, para poderem ser.
No momento em que entendessemos que tudo estava no sítio certo, não sobraria espaço para a nossa relevância, ou seja, a nossa presença seria irrelevante. Podemos considerar que tudo está no sítio certo, mas não podemos entendê-lo por completo.

O filme Vanilla Sky teve estreia a 14 de Dezembro de 2001, praticamente quatro anos depois do original espanhol, denominado Abre los Ojos, de Alejandro Amenábar (19/12/1997). Um é praticamente a cópia do outro, tirando detalhes próprios da produção americana.
O título foi justificado pela cor baunilha dos céus de Claude Monet, em particular do quadro
 The Seine at Argenteuil (Claude Monet, 1873) - quadro presente no filme, ilustrando um "Vanilla Sky"

Mas, tirando esses e outro detalhes, podemos ver como as cenas são praticamente as mesmas, inclusivé a cena final, no topo do arranha-céus. Também é claro que a interrogação sobre a realidade enquanto imagem de um "sonho lúcido" não era em nenhum dos filmes propriamente uma novidade, e pode até encontrar-se nos primeiros filmes, do tempo do preto-e-branco, mesmo talvez ao tempo do cinema mudo. 
Abre los ojos - cena final, onde também contracena Penélope Cruz

Agora, como este é um blog pessoal, e do que me lembro desse dia, por volta das 4h30 da manhã, uns doze anos antes, a lua estava cheia, já bem alta, iluminando os campos de trigo andaluzes, com cores mais ao jeito dos quadros de Van Gogh:
Paisagem com lua nascente em campos de trigo - Vincent van Gogh
Talvez a paisagem fosse melhor ilustrada pelo último quadro desse pintor, se entendermos que depois da chuva, o céu estava claro com uma lua branca, e em vez dos corvos, vimos a silhueta de algum carvalho ou sobreiro no meio do campo.

Campo de trigo com corvos - Vincent van Gogh.
E no argumento faltam muitas coisas, porque bebendo da ficção, não se ousa tanto quanto a realidade, na forma como ela se pode manifestar e surpreender. Porém, a confusão entre sonho e realidade raramente se coloca no sonho, é muito mais assunto que envolve a recordação do sonho, quando podemos comparar as duas versões - uma dada pela memória, e a outra dada pelo sentimento actual.
O sonho termina quando deixa de ter coerência, ou simplesmente porque não temos lugar na sua coerência. Aí, somos conduzidos a outro universo, onde a coerência é retomada, e é sempre a esse universo, onde reencontramos o nosso lugar, que passamos a chamar realidade. Mas, uma coisa não parece oferecer dúvidas, mesmo quando é segredada em sonho - acima de qualquer dilúvio é onde está a nossa casa.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Snowmageddon (2)

Em Fevereiro coloquei aqui um postal chamado Snowmageddon, que falava sobre o recorde de temperatura negativa (-22ºC) atingida em Chicago em 2015 (houve outros Snowmageddons recentes, por exemplo o de Atalanta de 2014).

Perante sucessivas evidências de que não há nenhum perigoso "aquecimento global", assistimos à difusão do Concerto de Paris, chamado COP 21 (um acrónimo tão bom quanto seria BOFIA 21)... porque o que interessa não são factos reais.
Ao concerto das vontades interessa o conserto das verdades, com factos políticos, propalados pelos media, usando uma chancela de comunidades científicas paupérrimas, de dinheiro e espírito.

Quando a pretensão do imperador Snow (ver filme Hunger Games) é um planeta bem fresquinho, pois todos os actores do teatro político mundial, cantam males ao CO2 e declaram guerra ao aquecimento global.

Foi sempre assim?
O que se passaria nos anos 1970, em plena "Guerra Fria"?
- Em plena guerra fria, temia-se pelo frio, pelo "inverno nuclear" (pois... e também devido ao "efeito de estufa"), e em termos de meteorologia não era diferente:

Arrefecimento Global

The Cooling World - Newsweek em 28 de Abril de 1975: ver texto integral

Nesta página da revista Newsweek, de Abril de 1975 (em vésperas do "Verão Quente" em Portugal), o que preocupava a imprensa, apoiada nos estudos científicos da época, era a clara evidência de um acentuado "arrefecimento mundial" - The Cooling World.

Os dados deveriam ser os mesmos, e portanto o gráfico de temperaturas que vemos ali a descer acentuadamente de 1945 até 1975, com perda média de 0.5ºF, deveria ser exactamente o mesmo - porque - espantem-se as gentes - os dados anteriores a 1975 já existiam em 1975. Mas, parece que não, parece que não... e são-nos mostrados novos gráficos que no presente negam estas afirmações do passado. A ponto de haver agora alterações nos gráficos, seleccionando apenas valores que apontem para um crescimento da temperatura... ou seja, não é apenas má fé, é falsificação, é burla consciente.

Este excerto da Newsweek fui encontrá-lo por indicação da revista Time que se queixava de uma manipulação de imagem que inventara uma capa inexistente. E como se chamava o artigo da Time em Junho de 1975?
Pois, pois... de facto, a revista Time foi exageradamente caricaturada em ter dado eco às frias previsões de 1975, quando o que agora interessa são as várias capas de 2002, 2005, 2006, 2008, 2009, que enfatizam os perigos do aquecimento global, para as décadas seguintes... mesmo que nada se confirme na década seguinte!

Foi assim que hoje ouvi um comentadeiro televisivo falar de que esta conferência COP 21 em Paris tinha servido para refutar todos aqueles que ainda negavam o "consenso científico"... enquanto outro notava que "em Novembro não tinha chovido", talvez esquecendo a intensa chuva do mês de Outubro. E quando vemos alarvidades desta dimensão, só podemos entender que o teatro vive mais o improviso dos palhaços do que da qualidade substantiva do argumento do presidente Snow.

O que quer dizer afinal "aquecimento global"?
Qual é o problema "ambiental"?

Não escrevo uma história, para perder tempo, ou fazer perder quem a quisesse ler. Mas, se optasse por tal argumento, o personagem seria confrontado com um entendimento enviesado das notícias.
- Quando lia sobre "o cuidado com o ambiente" entendia que "havia mau ambiente nas relações entre os actores políticos", havendo "alterações de clima" nas expectativas dos agentes;
- Quando lia sobre "o aquecimento global" entendia que "o ambiente estava a aquecer, podendo escaldar para os detentores de cargos públicos";
Enfim, é muito fácil dar outro significado a notícias vulgares. Por exemplo, uma "greve dos controladores (TAP)", poderia ser protesto do pessoal que controlava a populaça, ou a "greve dos revisores (CP)", o protesto dos revisores dos textos autorizados pela censura, etc...

Num tempo que se caracteriza por um mar de informação, um dos grandes medos dirigentes é a possibilidade de "inundação" descontrolada com notícias que provocam alterações no clima, um mau ambiente, poluído com factos incómodos, que levam a temperaturas escaldantes nos gabinetes diplomáticos. Quando isso acontece, sente-se a necessidade de um "conserto" para arrefecer as coisas, para manter o ambiente morno e pouco ameaçador.
No entanto, não se pense que esta narrativa tem nexo com alguma inteligência dirigente mundial, o nexo é aproveitado aqui e ali, mas a sua criação é de verdadeira supervisão... e por isso a leitura alternativa, quando apropriada e entendida, espantará tanto uns, quanto outros.

Agora, para além destas divagações, uma coisa parecerá clara... ou esta paranóia de "alterações climáticas", vulgo "aquecimento global", entra no esquecimento, como entrou o "arrefecimento global" de 1970-75, ou será a própria ciência a pagar o descrédito de ter uma elite que alinhou nisto de olhos fechados e mão estendida. Ora, uma consequência lateral muito perigosa seria ver a ciência descredibilizada ao nível das evidências visíveis - porque cairia num ridículo de que dificilmente recuperaria.