segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Every thing in its left place



Quem vê a repetição, nunca está na repetição.
Resposta a pergunta doutrem, com custos que serviriam para filmes doutras dimensões.
Não se sente a perda do que é subtraído pela amnésia de uma pancada, mas presumo que o que nos é inerente segue o seu caminho de reencontro, nem que demore uma década. A mesma inquietação, a mesma solução. Mais outra década para perceber que a resposta já tinha sido dada, porque afinal a amnésia não afecta rascunhos escritos. Porque as coisas importantes têm datas, e o resto são co-incidências que seguem o caminho de se colocarem no sítio certo da atenção.

Everything in its right place - Radiohead (Vanilla Sky Soundtrack)

As coisas não estão no sítio certo, estão no sítio que lhes sobra, para poderem ser.
No momento em que entendessemos que tudo estava no sítio certo, não sobraria espaço para a nossa relevância, ou seja, a nossa presença seria irrelevante. Podemos considerar que tudo está no sítio certo, mas não podemos entendê-lo por completo.

O filme Vanilla Sky teve estreia a 14 de Dezembro de 2001, praticamente quatro anos depois do original espanhol, denominado Abre los Ojos, de Alejandro Amenábar (19/12/1997). Um é praticamente a cópia do outro, tirando detalhes próprios da produção americana.
O título foi justificado pela cor baunilha dos céus de Claude Monet, em particular do quadro
 The Seine at Argenteuil (Claude Monet, 1873) - quadro presente no filme, ilustrando um "Vanilla Sky"

Mas, tirando esses e outro detalhes, podemos ver como as cenas são praticamente as mesmas, inclusivé a cena final, no topo do arranha-céus. Também é claro que a interrogação sobre a realidade enquanto imagem de um "sonho lúcido" não era em nenhum dos filmes propriamente uma novidade, e pode até encontrar-se nos primeiros filmes, do tempo do preto-e-branco, mesmo talvez ao tempo do cinema mudo. 
Abre los ojos - cena final, onde também contracena Penélope Cruz

Agora, como este é um blog pessoal, e do que me lembro desse dia, por volta das 4h30 da manhã, uns doze anos antes, a lua estava cheia, já bem alta, iluminando os campos de trigo andaluzes, com cores mais ao jeito dos quadros de Van Gogh:
Paisagem com lua nascente em campos de trigo - Vincent van Gogh
Talvez a paisagem fosse melhor ilustrada pelo último quadro desse pintor, se entendermos que depois da chuva, o céu estava claro com uma lua branca, e em vez dos corvos, vimos a silhueta de algum carvalho ou sobreiro no meio do campo.

Campo de trigo com corvos - Vincent van Gogh.
E no argumento faltam muitas coisas, porque bebendo da ficção, não se ousa tanto quanto a realidade, na forma como ela se pode manifestar e surpreender. Porém, a confusão entre sonho e realidade raramente se coloca no sonho, é muito mais assunto que envolve a recordação do sonho, quando podemos comparar as duas versões - uma dada pela memória, e a outra dada pelo sentimento actual.
O sonho termina quando deixa de ter coerência, ou simplesmente porque não temos lugar na sua coerência. Aí, somos conduzidos a outro universo, onde a coerência é retomada, e é sempre a esse universo, onde reencontramos o nosso lugar, que passamos a chamar realidade. Mas, uma coisa não parece oferecer dúvidas, mesmo quando é segredada em sonho - acima de qualquer dilúvio é onde está a nossa casa.

Sem comentários:

Enviar um comentário