sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Os pássaros (1) de Aristófanes

As Aves, ou "os Pássaros", é uma obra crucial de Aristófanes.
Dentro do estilo de comédia, que até pode ser "de mau gosto" para mentes puritanas do Séc. XXI, pelo seu lado mais literal (e menos interessante), tem informações importantes a diversos níveis.


Curiosamente, o que me chamou a atenção para a história foi um tema de Laurie Andersen, que aqui já coloquei noutra ocasião.
 Laurie Anderson - The Beginning of Memory

Ela apenas menciona uma curta passagem, mas que é uma história por si mesmo. A ideia notável é a de que o início da memória seria representado por uma cotovia que decide albergar o pai morto na parte anterior da cabeça... numa altura em que não havia Terra para o depositar.

Este é apenas um detalhe, a obra não é longa, deverei conseguir transcrevê-la aqui em poucos postais, e também o faço porque simplesmente não há versões traduzidas em português disponíveis na internet... e algumas traduções, de que vi excertos, eram tão más, que por certo que não farei pior.
Irei usar uma tradução inglesa, e outra francesa, para formar a portuguesa... mas não seguirei nenhuma de forma exacta.


Bom, e é claro que poderemos lembrar o filme de Hitchcock, "The Birds", ao ler o plano traçado pelos pássaros na peça de Aristófanes.

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As Aves 
(de Aristófanes)

Cena: Uma região selvagem e desolada; apenas se vêem matagais, rochas, e uma única árvore. Euelpide e Pistétero entram, cada um com um pássaro na mão.
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Gaio (de Euelpide) e Corvo (de Pistétero)
Euelpide (para o seu Gaio): Achas que eu deveria ir directamente para a árvore?
Pistétero (para o seu Corvo): Maldita besta, estás a grasnar para mim?... para rever meus passos?
Euelpide: Por que razão, desgraçado, estamos vagueando ao acaso, esforçando-nos somente para regressar ao mesmo local? Estamos perdendo tempo.
Pistétero: E pensar que eu deveria confiar neste Corvo, que me fez andar mais de mil estádios!

EuelpideE que eu, em obediência a este Gaio, devo ter gasto os meus dedos dos pés até às unhas!
PistéteroAo menos se eu soubesse onde estávamos.
EuelpidePoderia reencontrar a sua terra a partir daqui?
PistéteroNão, certamente que não podia. Não mais do que poderia Execestides encontrar a sua.
[Execestides - personagem, habitante da Cária]

EuelpideAla!
PistéteroSim, sim, meu amigo, seguimos certamente o caminho "alado", ao lado.
Euelpide: Filocrates, o vendedor de pássaros, enganou-nos vilmente, quando fingiu que estes dois guias nos poderiam ajudar a encontrar Tereus, a Poupa, que é um pássaro, sem nascer de um. Ele realmente nos vendeu este Gaio, um verdadeiro filho de Tarrelides, por uma moeda [obolus], e este corvo por três, mas o que eles podem fazer? Absolutamente nada, senão bicar e arranhar!
(Para o seu gaio): Qual é o teu problema, que continuas de bico aberto? Quer atirar-nos para um precipício? Não há nenhum caminho por aí!
Pistétero: Nem vestígio de nenhum trilho, em qualquer direcção.

Euelpide: E o que diz o corvo sobre o caminho a seguir?
Pistétero: Por Zeus, já não grasna a mesma coisa.
EuelpideE o que caminho diz para seguir?
PistéteroDiz que, à força de bicar, acabará por devorar os meus dedos.

Euelpide: Que infortúnio o nosso! Envidámos todos os esforços para chegar aos corvos, fizemos tudo o que pudemos para esse fim, e não podemos encontrar o nosso caminho! 
Sim, espectadores, a nossa loucura é bastante diferente da de Sacas. 
Ele não é um cidadão, e de bom grado o seria a qualquer custo; nós, pelo contrário, nascidos de uma tribo e família honradas, e vivendo no meio dos nossos concidadãos, fugimos do nosso país com todas as nossas forças. Mas os grilos apenas cantam junto às figueiras por um mês ou dois, enquanto os Atenienses passam toda a vida a cantar dos julgamentos dos seus tribunais. Por isso, começámos com um cesto, um pote de guisado e uns ramos de mirtilo, e fomos à procura de um país calmo onde residir. 
Vamos ter com Tereus, a Poupa, para que nos diga se, nos seus grandes voos, viu alguma cidade assim.
PistéteroAqui! Veja!

EuelpideQual o problema?
Pistétero: Ora, o corvo aponta-me algo lá em cima, há já algum tempo agora.
Euelpide: E o gaio também está abrindo o bico e esticando o pescoço, para me mostrar o quê, eu não sei. Claramente, há algumas aves aqui. Saberemos em breve, se fizermos barulho.
Pistétero: Sabe o que fazer? Bata a perna contra esta rocha.
EuelpideE você com a cabeça, para duplicar o ruído.
Pistétero: Bom, então use uma pedra e um martelo. Tome!

EuelpideBoa ideia! - e assim o faz, gritando: Oh! Aí dentro!... Escravo! Escravo!
Pistétero: O que é isso, amigo? Você diz "escravo", para convocar a Poupa? Seria muito melhor gritar: "Poupa, Poupa!"
Estrelinha-de-poupa
EuelpideBom... então - Poupa!... Tenho que bater de novo? Poupa!

Estrelinha (saindo da moita): Quem está aí? Quem chama o meu senhor?
Pistétero (em terror): Por Apolo, libertador! Que bico enorme!
(Com medo, defeca. Na confusão, o gaio e o corvo fogem)

Estrelinha (igualmente assustado): Credo, são caçadores de pássaros! 
Euelpide (ganhando confiança): É assim tão terrível? Não seria melhor explicar?
Estrelinha (igualmente ganhando confiança): Passam por isso!
EuelpideMas nós não somos homens!
Estrelinha: Então o que sois?
Euelpide (igualmente defecando): Eu sou Medroso, uma ave da Líbia [África].
EstrelinhaDizeis disparates!
Euelpide: Então, olha só para os meus pés!
EstrelinhaE este outro, que pássaro é? - para o Pistétero: Fala!
Pistétero (a medo): Eu? Eu sou o Merdoso, da terra dos faisões.

Euelpide: Mas você, em nome dos deuses, que animal é?
Estrelinha: Ora, eu sou um Pássaro-Escravo!
Euelpide: Porquê, fostes conquistado por um Galo?
Estrelinha: Não, mas quando meu mestre foi transformado numa poupa, ele me implorou para o seguir e servi-lo.

Euelpide: Então, um pássaro precisa de um servo?
Estrelinha: Sem dúvida, porque antes era um homem. Às vezes ele quer comer um prato de sardinhas de Phalerum; Eu pego no meu prato e voo para ir buscar algumas. Às vezes quer uma sopa de ervilhas; e eu arranjo uma concha e um pote, e vou a correr para a fazer.

Euelpide: Então, é verdadeiramente um corredor. Venha, Estrelinha, faça-nos o favor de chamar seu mestre.
Estrelinha: Ora, ele acabou de cair no sono depois de comer bagas de mirtilo e algumas larvas.
Euelpide: Não importa; acorde-o!
Estrelinha: Eu, hein? Ele vai ficar com raiva. No entanto, para o satisfazer, vou acordá-lo.
(Volta para a moita)

Pistétero (ao Estrelinha que se afasta): Seu bruto malvado. Quase morri de medo!
Euelpide: Oh! meu Deus! Foi puro medo que me fez perder o Gaio.
Pistétero: Ah! Grande covarde! Estava tão assustado que foi largar o seu gaio?
Euelpide: E não perdeu o seu corvo, quando se esparramou no chão? Diga lá!
PistéteroDe modo nenhum!
Euelpide: Onde está, então?
PistéteroVoou!
Euelpide: E não o deixou ir? Ah! Você é corajoso!

Poupa (Upupa Epops)
Poupa (de dentro da moita): Abram o matagal, para que eu possa sair! - e sai da moita.
Euelpide: Por Herácles! Que criatura! Que plumagem! Que significa essa crista tripla?

Poupa: Quem me quer?
Euelpide (de bom humor): Os doze grandes deuses quiseram-lhe mal, parece.
Poupa: Está bicando as minhas penas? Eu fui um homem, estranhos.

EuelpideNão estamos a zombar de si.
Poupa: Então, de quem?
Euelpide: Ora, é o seu bico que nos parece ridículo.
Poupa: É assim que Sófocles me enfurece nas suas tragédias. Sabe, eu fui Tereus.
Euelpide: Foi Tereus, mas o que é agora? Um pássaro ou um pavão?
PoupaSou um pássaro.

Euelpide: Onde estão as suas penas? Eu não vejo nenhuma!
PoupaCaíram.
EuelpidePor doença?
PoupaNão. Todos os pássaros mudam suas penas, você sabe, a cada inverno, e outras crescem. Mas diga-me, quem é você?
EuelpideNós? Nós somos mortais.
PoupaDe que terra? 
EuelpideDa terra das belas galés.

PoupaSão heliastas? [jurado na Eclésia, tribunal popular de Atenas] 
EuelpideNão, se alguma coisa, somos anti-heliastas.
PoupaÉ esse tipo de semente semeada entre vós?
EuelpideProcurarias muito, para encontrar pouco, nos nossos campos.
PoupaO que vos traz aqui?
EuelpideQueríamos visitá-lo.
Poupa: Para quê?
Euelpide: Porque, como nós, foi um homem; tinha dívidas, como nós; não queria pagar, como nós não queremos; além disso, tendo sido transformado num pássaro, ao voar tem visto todas as terras e mares. Assim, você tem o conhecimento humano e o dos pássaros. E, portanto, lhe imploramos orientação para alguma cidade acolhedora, onde nos possamos abrigar, como em grossos mantos.

PoupaE estão procurando uma cidade maior que Atenas?
EuelpideNão, não maior, mas mais agradável para se viver.
PoupaEntão, está procurando um país aristocrático.
EuelpideEu, de modo nenhum. Tenho horror ao filho de Scellias. 
PoupaMas, afinal, que tipo de cidade lhe agradaria?
EuelpideUm lugar onde o negócio mais importante seria a transacção seguinte. - Algum amigo viria a bater à porta cedo, dizendo: "Por Zeus, esteja na minha casa cedo, logo que você tenha tomado banho, e traga os seus filhos também. Estou dando uma festa, por isso não falhe, ou então não se cruze comigo quando estiver irritado".  
PoupaAh! A isso é que se pode chamar um "amante de dificuldades"! - e dirigindo-se a Pistétero: E o vós que dizeis? 

PistéteroMeus gostos são semelhantes.
Poupa: E eles são?
Pistétero: Eu quero uma cidade onde o pai de um rapaz elegante pára na rua e diz-me em tom de censura, como se eu o tivesse falhado, "Ah! Está assim bem feito, Stilbonides? Você conheceu meu filho vindo do banho após o ginásio e você nem falou com ele, nem o beijou, nem o levou consigo, nem o apalpou. Será que alguém poderia chamá-lo velho amigo? "

Poupa: Ah! Vejo que vocês são apreciadores de sofrimento. Mas há uma cidade de delícias, como vocês querem. Encontra-se no Mar Vermelho [Eritreu].
Euelpide: Ah não. Não é um porto de mar, onde numa bela manhã a galé Salaminia poderia aparecer, trazendo um processo  junto. Você não tem uma cidade não grega a nos propor?
PoupaPorque não escolhem Lepreum em Elis para a residência?
Euelpide: Por Zeus! Eu não podia olhar para Lepreum sem nojo, por causa de Melanthius.

Poupa: Então, há Opuntian Locris, onde vocês poderiam viver.
Euelpide: Eu não seria Opuntiano por um talento. Mas, como é viver com os pássaros? Você deve saber muito bem.
Poupa: Ora, não é uma vida desagradável. Em primeiro lugar, não se tem bolsa.
Euelpide: Isso acaba com um monte de malandragem.
PoupaPara nos alimentar os jardins dão gergelim branco, bagas de mirtilo, papoilas e hortelã.
Euelpide: Ora, isso é a vida do recém-casado, de facto.

Pistétero: Ah! Estou começando a ver um grande plano, que irá transferir o poder supremo para as aves, se quiserem o meu conselho.
Poupa: Tomar o seu conselho? De que maneira?
PistéteroDe que maneira? Bom, em primeiro lugar, não voam em todas as direcções com bico aberto; ele não é digno. Entre nós, quando vemos um homem impensado, perguntamos: "Que tipo de pássaro é esse?", e Teleas responde: "É um homem que não tem cérebro, um pássaro que perdeu a cabeça, uma criatura que não pode alcançar, pois não permanece em nenhum lugar."

PoupaPelo próprio Zeus! As vossas tolices atingem o ponto. O que há-de então ser feito?
PistéteroFundar uma cidade.
Poupa: Nós, aves? Mas que tipo de cidade que devemos construir?
PistéteroOh, realmente, realmente! Você fala como um bobo! Olhe para baixo.
PoupaEstou olhando.
PistéteroAgora, olhe para cima!
PoupaEstou olhando.
PistéteroVire a cabeça.
Poupa: Ah! Será agradável finar-me, torcendo meu pescoço!

PistéteroO que você viu?
Poupa: As nuvens e o céu.
PistéteroMuito bem! Não é este o pólo das aves, então?
PoupaQue pólo?
Pistétero: Ou, se preferir, o seu lugar. E uma vez que ele roda e passa por todo o universo, ele é chamado de 'pólo'. Se você o construir e o fortificar, você vai transformar o seu pólo em uma cidade. Desta forma, você irá reinar sobre a humanidade como você faz sobre os gafanhotos, e você vai fazer com que os deuses morram de fome raivosa.
PoupaComo assim?
Pistétero: O ar está entre a Terra e o Céu. Quando queremos ir para Delfos, pedimos aos Beócios licença de passagem; da mesma forma, quando os homens sacrificarem aos deuses, se os deuses não pagarem tributo, exercem o direito de cada nação em relação a estranhos, não permitindo que os fumos dos sacrifícios passem pelo vosso território.
Poupa: Pelas Terras, pelas armadilhas, pelas redes, pelas gaiolas! Eu nunca ouvi falar de nada mais inteligentemente concebido. Se os outros pássaros aprovarem, construiremos a cidade juntos.

PistéteroQuem lhes vai explicar o assunto?
Poupa: Tu! Antes de eu chegar eram bastante ignorantes, mas vivendo com eles, ensinei-os a falar.
PistéteroComo os podemos reunir?
Poupa: Facilmente. Eu vou até ao matagal para despertar a minha querida Procne e assim que ouvirem as nossas vozes, eles voarão até nós.
PistéteroMeu querido pássaro, não vamos perder tempo! Voe para o mato e desperte Procne.

(Tereus, a poupa, voa para o mato.)

(continua)

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