quarta-feira, 27 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (42)

Num postal antigo - Mayday, já tinha sugerido um tema dos Dead can Dance, o grupo australiano de Lisa Gerrard. Volta à baila o álbum de 1988 com o título "o ovo da serpente" (também título de um filme de Ingmar Bergman).

Dead Can Dance (album: The Serpent's Egg)

In the Kingdom of the Blind the One-Eyed are Kings.
(No reino dos cegos, quem tem olho é rei...
... ainda que só dois olhos permitam a perspectiva)


Se estivesse, se estivesse em nosso poder,
Além do alcance do nosso orgulho escravo,
Não mais acolher descontentamentos,
Atrás da máscara, e da face oportunista.

Poderíamos receber a Responsabilidade,
Como recebemos um amigo perdido,
E reestabeleceríamos o Riso
De novo, nesta casa de bonecas.

Porque o tempo aprisionou-nos,
Na ordem dos nossos anos,
Na disciplina dos nosso modos,
E na passagem da inércia momentânea.

Podemos ver o nosso caos em movimento,
O nosso caos em movimento,
Podemos ver o nosso caos em movimento,
Vejam o nosso caos em movimento...

(... e a subsequente colisão de idiotas, 
bem versados na subtil arte da escravatura)

Dead Can Dance - The Carnival is over

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Nebulosidades auditivas (41)

Em 12 de Setembro de 1980, o General Kenan Evran liderou um golpe de estado na Turquia, e foi depois eleito presidente do país, em 1982, onde se manteve no poder até 1989. Este foi o último assinalável golpe de estado na Turquia, até estes acontecimentos da noite de 15 de Julho de 2016.

Curiosamente, passado um ano, em Outubro de 1981, Rod Stewart (o cantor que gostaria de ter sido futebolista) lançava um dos seus maiores sucessos "Young Turks".
Young Turks - Rod Stewart (1981)

"Jovens turcos" foi uma designação muito particular na história da Turquia, que teve a ver com o movimento político no início do Séc. XX, que transformou o decadente Império Otomano num estado com uma Constituição, procurando copiar os restantes modelos europeus, e de certa forma ainda os ideais da revolução francesa.
O termo ganhou conotação com uma rebeldia impetuosa, e por vezes desmedida... afinal, é durante o governo dos "jovens turcos", que se dará o genocídio na Arménia, em 1915, para além da aliança estratégica com a Alemanha, ter levado à dissolução do império otomano após a derrota na 1ª Guerra Mundial.

É no sentido de rebeldia juvenil que a canção de Rod Stewart irá buscar o título da canção, em nada se referindo à Turquia, que estava então sob controlo dos militares, com a constituição suspensa.

De entre os diversos países de orientação muçulmana, a Turquia foi sendo vista como uma certa excepção, onde o factor religioso não influenciava muito o funcionamento laico do estado, e de certa forma isso foi sendo tomado como missão dos próprios militares, desde Ataturk.
A subida ao poder de Erdogan veio mudar essa tendência laica, passando a figurar uma tendência de regresso aos velhos valores morais religiosos. A influência dos militares foi sucessivamente questionada, pelo novo poder islâmico, a ponto do velho General Kenan Evran ter sido julgado e condenado a prisão perpétua em 2014, quando já contava 96 anos.

Tal como no Egipto ou na Argélia, é o poder ditatorial dos militares que tem evitado que estes estados de confissão islâmica tenham degenerado em repúblicas religiosas, como aconteceu no caso do Irão.
Quanto ao golpe ocorrido, ao mesmo tempo que se reuniam os representantes dos negócios estrangeiros dos EUA e Rússia (Kerry e Lavrov), levantou algumas suspeitas de anuência, para regresso a um estado laico. Após o falhanço da insurreição, coloca-se a questão de ter sido o próprio Erdogan a orquestrar um golpe fictício, com o objectivo de aumentar os seus poderes e fazer agora uma purga na administração mais laica - militares e juízes, que caíram no erro de apoiar o golpe e assim explicitarem a sua oposição. Só que as coisas nunca são simples, e a ausência de identificação clara da hierarquia que apoiou o golpe pode também indiciar que esta encenou um primeiro golpe para ver a resposta militar, aguardando para fazer um segundo golpe mais contundente... tudo dependendo da atitude que Erdogan irá adoptar. Afinal, convém não esquecer que antes do 25A também houve uma fidelíssima brigada do reumático, após o 16M.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

"2016 Nice Attack" na Wikipedia

Há certos cuidados que são de bom tom... na página da Wikipedia inglesa escreveu-se:

2016 Nice Attack

e apesar das milhares de visualizações, ninguém terá ainda reparado que a leitura "Nice Attack" é bastante sórdida, sendo claramente preferível mudar para "2016 Attack in Nice".

As informações, que neste tempo deveriam ser rápidas e fiáveis, permanecem numa quase completa nebulosidade. Inicialmente falava-se em 3 terroristas, num camião cheio de armas... Acabo de ouvir o procurador-geral e nesta altura reconhece-se que foi um único condutor, com uma pistola, sendo o restante duas ou três armas de brincar.

Depois é claro, há toda uma associação imediata ao terrorismo islâmico, feita pelo facto de se ter identificado o condutor como sendo residente em França, de origem tunisina.
Ora, o que disseram os vizinhos? (FranceInfo)
-"c'était un homme peu religieux, ne priant pas, n'allant pas à la mosquée, aimant la salsa et les gonzesses"
- "le mois dernier il avait commencé le ramadan mais ne l'avait pas terminé".
- "un homme seul et en rupture avec ses proches, notamment fâché avec sa famille en Tunisie où il n'était pas retourné depuis des années".
- "récemment divorcé ou en instance de divorce"
- "avait pris un appartement distinct de celui de sa compagne et de ses trois enfants"
- "Il joue de la salsa, fait de la musculation et fréquente des gonzesses… Pour moi, il a pété les plombs"
Portanto, um homem pouco religioso, que não ia à mesquita, e que só no último mês tinha iniciado o Ramadão... algo que não configura alguém cometido a fundo com uma organização fundamentalista islâmica. Estava sinalizado pela polícia, mas por desacatos vulgares.

Configura-se poder ter razão o vizinho que dizia - "Para mim, fundiu os fusíveis".

No entanto, não foi esse o curso que a história tomou... e não é a primeira vez que vemos este filme, de ser conveniente alinhar num enredo diferente.

Em 11 de Março de 2004, logo após os atentados de Madrid, o primeiro ministro José Maria Aznar decidiu culpar imediatamente a ETA, para evitar ser ligado a uma consequência do seu apoio à Invasão do Iraque. Realizavam-se eleições no fim de semana, e não foi considerado conveniente admitir um ataque islâmico. Esta versão foi tentada ser mantida pelo governo, nos órgãos de comunicação, durante dois dias.

Talvez se venha a estabelecer a ligação terrorista, porque o homem visitou um ou dois sites na internet, ou porque "podem" aparecer emails "comprometedores". A partir desta fase, o que fica dentro do conhecimento restrito da polícia, pode prestar-se a todo o tipo de associações, dependendo da história que se quiser passar. 
O que é certo, depois das declarações do procurador, é que nenhuma organização terrorista reivindicou o atentado, e que o homem terá agido sozinho na execução do crime.

Poderia ser isto apenas um acto singular tresloucado, antecedendo uma vontade suicida?
Seria caso único? 
- Não!
- Nem sequer é preciso considerar o caso do norueguês Anders Breivik, que tomou em sua conta 77 vidas, também invocando o Islão, mas em sentido contrário... por islamofobia. A polícia norueguesa tomou o cuidado de o apanhar vivo e o condenar. Ao contrário, e de acordo com um relato de um português, testemunha ocular, foi só depois do camião parar que a polícia chegou, e o decidiu abater, alegando troca de tiros.  

- Um outro caso ocorreu, no ano passado, curiosamente também perto de Nice, nas montanhas.
O vôo 9525 da GermanWings vitimou os 150 passageiros e tripulação, alegadamente por decisão suicida do co-piloto Andreas Lubitz.

Se o co-piloto não fosse alemão, se fosse de origem turca, ou de outra nacionalidade islâmica, se se chamasse Mohamad, ou similar, não se teria aí também associado imediatamente uma conexão terrorista?

Ora, é nesta contradição que vive a Europa do "politicamente correcto".
A Europa "politicamente correcta" critica facilmente a xenofobia alheia, mas estala o seu verniz quando apenas com base na nacionalidade de um atacante faz todo o discurso recair numa condenação terrorista.
Foi terror, mas provavelmente foi um tresloucado acto individual, sem outra conotação.

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Nota (17/07/2016)
Entretanto, o Estado Islâmico (Daesh) decidiu colar-se ao atentado, reivindicando que Mohamed Bouhel teria agido sob inspiração dos seus apelos. Porém, conforme logo foi notado (euroweeklynews)
 However there are doubts as to whether DAESH is really responsible as it had failed to prepare propaganda in advance of the attack as occurred on previous occasions.
... ou seja, ao contrário de casos anteriores, o Estado Islâmico apenas esboçou uma atitude reactiva, conveniente, não mostrando conhecer o que se iria passar.
As autoridades francesas, com a reputação de rastos, pela sua incapacidade de evitar a chacina, parecem também preferír atribuir mérito a um atentado do Estado Islâmico, do que reconhecer a sua incapacidade de travar as intenções suicidas de um louco num camião.
Mesmo que Bouhel tenha alinhado à última hora no apelo do Estado Islâmico, nada muda que o atentado poderia ter sido simplesmente realizado por um louco isolado, fosse por que motivação fosse. Ter inimigos de acordo sobre uma versão da realidade, conveniente para ambos, não significa minimamente que esta esteja mais próxima da verdade.
Afinal, se um condutor inglês atropelasse um indiscriminado número de transeuntes no "Promenade des Anglais", no dia seguinte ao novo governo britânico tomar posse, isso ligar-se-ia ao Brexit?
Que ao Daesh interesse a ligação ao incidente, ainda se entende, agora que o governo francês alinhe nisso, será miopia, pois a longo prazo irá apenas favorecer expectativas terroristas, de dar sentido a vontades suicidas.

terça-feira, 12 de julho de 2016

segunda-feira, 11 de julho de 2016